Gabigol se aventura como rapper em meio a treinos, shows e vaidade

Pedro Martins / Divulgação O jogador Gabigol, que adotou alcunha artística de Lil Gabi

Lá pelas tantas, Gabriel Barbosa Almeida irrompe no ambiente barulhento. Os amigos fazem festa. “Todo no estilo, hein!”, exclama um deles. O rapaz de 25 anos veste um colete — o peitoral inteiramente tatuado à mostra —, usa tênis Nike personalizado, com cada peça de uma cor, e mantém a calça baixa, de maneira a expor a cueca da grife Calvin Klein. Correntes de ouro pendem do pescoço e do braço direito.

Depois das 5h, o jovem sobe ao palco, com um copo na mão, ao lado do rapper WIU. Horas antes, no Twitter, ele avisara que Lil Gabi, seu codinome artístico no mundo do rap, “estaria on” naquela madrugada de shows. Diante da figura, no entanto, a plateia de cerca de 40 mil pessoas grita o nome que fez fama nas arquibancadas. Gabigol está na área.

Música é um lance sério para o jogador, ausente na lista de convocados, anteontem, para a seleção brasileira nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022. De uns tempos para cá, o craque do Flamengo dá sinais de que deseja conciliar dribles e rimas. No fim de agosto, sob a tal alcunha de Lil Gabi, inseriu-se no mercado musical ao lançar a canção “Sei lá” com o rapper Choji e o produtor Papatinho, responsável por sucessos de Anitta, Ludmilla e Ferrugem.

Revelado ao público no “Fantástico”, da TV Globo, o clipe com a letra acumula mais de 30 milhões de reproduções em tocadores de streaming como Spotify e afins, mantendo-se, há seis meses, na lista das 200 produções mais ouvidas no Brasil. Três músicas inéditas já estão engatilhadas — com Poze do Rodo, Dfideliz e Borges. E há uma fila de rappers em busca da mesma batida de ouro com o atleta.

“O rap é um estilo que tem dado chances pra muita gente que vem de baixo, então todo mundo tenta se ajudar”, diz Borges, que lançará uma canção (e um clipe) com o jogador. “Posso adiantar que é hit. Amassamos na rima e “tamo” botando muita fé no som. Gabigol é brabo. Se ele quiser viver do rap, tem talento também”.

Fôlego natural Reprodução / Instagram Gabigol em participação em show de rap, sob a alcunha de Lil Gabi


Aos colegas, o ícone dos gramados — que tem um salário mensal estimado em R$ 1,5 milhão — insiste que o rap, o trap e o funk são um “hobby”, e que tomou uma proporção inimaginável. No Flamengo, dirigentes do time preferem não dar pitaco. “É algo pessoal do atleta. O clube não se envolve. Trata com naturalidade”, informa a assessoria de imprensa em nota.

Fato é que, apesar de eventuais reclamações da torcida rubro-negra sobre a carreira na música, Gabigol não foge dos compromissos em campo. No dia 13 de fevereiro, ele marcou um gol numa partida contra o Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, e, após o apito final, por volta das 21h, dirigiu-se para casa, na Barra da Tijuca, onde o cabeleireiro Don Marlus o aguardava. Ali, deu um trato nas madeixas tingidas de louro, religiosamente aparadas duas vezes por semana, e vestiu o traje de rapper antes de seguir para o Rep Festival, o tal evento da abertura deste texto. Após a farra, voltou a assumir, à tarde, a identidade de Gabigol nos treinos.

Dos amigos que ganham a vida com o rap, o jogador ouve incentivos para não levar a incipiente carreira musical apenas como brincadeira. Está aí um campo lucrativo, em expansão, e que hoje movimenta cifras elevadas. “Já deu bom”, costumam aconselhar MCs.

“Contanto que ele mantenha a disciplina de jogador, nada impede que ele faça música”, frisa Papatinho, que se tornou amigo e padrinho musical do craque após se apresentar na final da Copa Libertadores da América, em 2019, que consagrou o Flamengo como campeão. “Gabigol combina com a parada. Tem o “lifestyle” do trap e o jeito marrento de “bad boy”. Não é coisa forçada”.

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Pedro Martins / Divulgação O jogador Gabigol, que adotou o codinome Lil Gabi como rapper

Música, letra e futebol
 O bate-bola entre futebol e música não é de hoje. Pelé fez dueto com Elis Regina, em 1969, e gravou disco. Pouco antes da Copa de 1982, Júnior lançou “Povo feliz” (aquela do “Voa canarinho”), um sucesso instantâneo. Tem explicação: por aqui, a ascensão profissional do esporte ocorreu no mesmo período em que a Era do Rádio projetou a música popular brasileira. Desde então, o cancioneiro nacional usa o futebol como fonte de inspiração. E vice-versa.

“A partir dos anos 1930, a cultura de massas se consolidou e projetou a imagem do Brasil como o país do futebol e da música. Isso se construiu em conjunto, até o ponto do “futebol-arte”, uma forma de jogar que tem a ver com a corporalidade do samba”, ressalta o sociólogo Bernardo Buarque de Hollanda, autor de diversos livros sobre futebol, entre eles “A voz da arquibancada” e “Olho no lance”.

“Hoje, já não dá para saber o que é ou não fabricado, pois jogadores se tornaram peças publicitárias. Isso sem falar que há uma compressão da vida útil de um craque: brilha-se muito intensamente, mas, proporcionalmente, passa-se a ser esquecido em poucos anos”, completa.

Gabigol frequenta estúdios de música há pelo menos uma década. Nascido e criado no Morro do Montanhão, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, ele se aproximou de ídolos do rap tão logo estreou profissionalmente no Santos Futebol Clube, aos 16 anos. Na Vila Belmiro, estádio onde também se notabilizaram Pelé e Neymar, o jogador recebeu artistas como Mano Brown, Projota e Emicida, todos torcedores do time. Desde então, afinou amizade com mais gente da música e se tornou nome recorrente em “resenhas”, como são chamadas as confraternizações particulares, como as realizadas em estúdios.

Ostentação e excessos
Gabigol, a rigor, produz trap, estilo musical da vez nas periferias de grandes centros urbanos do país. O subgênero do rap se apresenta como um entretenimento rápido, com batidas-chiclete e sem reflexões ancoradas num discurso sobre luta de classes, algo tradicional no rap. No trap, aliás, a onda é oposta: fama, dinheiro e sexo são temas obrigatórios nas letras, abordados sob viés masculino e em tom de ostentação. Em “Sei lá”, letra de Gabigol, Choji e Papatinho, um dos trechos diz: “É que sou o dono da festa/ Faço uma party com as ‘bitch’ pelada/ Dinheiro eu tô jogando pro alto/ Só porque minha conta tá lotada”.

“Essa é a nossa vivência”, frisa Choji, petropolitano de 20 anos, morador da favela Alto Independência. “Entendo as críticas, porque é algo que não é normal para quem é de fora desse meio. Mas isso é o que a gente vive, tá ligado?”.

Parceiros musicais de Gabigol reforçam tal posicionamento com outro argumento: muitos dos artistas estourados no trap enfrentaram uma série de percalços nas “quebradas” para alcançarem um lugar ao sol. Hoje, a turma quer mais é mostrar que, sim, pode viver muito bem, obrigado, com a grana que colhe da música. Na próxima letra a ser lançada pelo craque do Flamengo, com Papatinho e Borges, o trio diz: “Nós estamos no estúdio/ Gabi e Borges só resenha/ Mano Papatinho tá trajado de Lacoste/ Nós têm Mercedes, Land Rover e Ferrari”.

“Fiz rap durante muitos anos sem entender por que os caras gastavam tantos milhares de dólares em correntes, tá ligado? Até que um dia alguém me passou a ideia: “Pô, é música de preto”. Tem uma simbologia do tipo: “Tire o grilhão do meu pescoço porque agora vou colocar o cordão de ouro que eu conquistei”. Você mostra para o moleque que ganhou, venceu, e que isso é possível”, discorre o rapper Projota, amigo de Gabigol há quase dez anos e que já o recebeu no palco. “Ele ama esse bagulho de rap. E ele é maluco, né, cara? (risos) Tem um carisma foda e gosta de uma bagunça, de uma festa”.

Não à toa, o visual do jogador está sempre nos trinques. De mês em mês, ele é clicado — nos campos, nos estúdios ou nos shoppings — com um cabelo novo. “Gabigol pega a foto de jogador de futebol americano ou de NBA e me pede pra fazer igual”, conta o cabeleireiro Don Marlus, amigo do jogador. “O que não pode faltar é louro. Tem sempre um lourinho na cabeça dele”, completa.

Fonte: ESPORTE.IG.COM.BR