De eleições à Cracolândia: o que Ricardo Nunes busca para 2024

De eleições à Cracolândia: o que Ricardo Nunes busca para 2024

Edson Lopes Jr/Secom Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), já tem sua estratégia bem definida para buscar a reeleição para o comando da maior cidade da América Latina em 2024: agradar gregos e troianos para conseguir apoios em sua chapa eleitoral. Na mira estão o União Brasil e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que entraria com o maior capital político para Nunes no pleito do ano que vem.

Embora não se veja como bolsonarista, Nunes admitiu, em entrevista ao iGque quer a todo custo o apoio de Bolsonaro para as eleições e diz não se preocupar com as investigações que assombram o ex-presidente. Para o prefeito, o caso merece investigação, mas diz ser cedo para apontar culpados.

“Eu quero, eu desejo o apoio do presidente Bolsonaro. Eu quero e desejo o apoio do Tarcísio, do PL, do Republicano, do União Brasil, enfim, de todos os partidos.”, declarou.

“Zero. Absolutamente zero. Zero, zero, zero, zero. Todo agente público tem que ser investigado, vai ser investigado e é o que tem que ser feito. Pelo fato de estar sendo investigado, nenhum problema, as pessoas, quando entram na vida pública, sabem que tem que dar explicação, tem que colocar à disposição das autoridades todas as informações e eu acho que o presidente está fazendo isso”, concluiu.

Nunes ainda despistou sobre o vice de sua chapa e afirmou que a decisão só será tomada no próximo ano. Ele negou que a decisão do cargo ficará a cargo de Bolsonaro, embora já se tenha um acordo para que o ex-presidente escolha uma pessoa próximo para ocupar o posto.  

“Eu estou combinando com todo mundo. Vamos sentar com todos os partidos e aí a gente define conjuntamente. Cada partido vai colocar ali as suas considerações e ponderações. E o que eu tenho visto bastante é o PL dizer que é o maior partido, e é verdade. É um partido que tem o maior tempo de televisão e isso pesa. Agora vamos supor que o PL vem com um nome que não seja um nome que vai agregar. Então acho que aí vem o outro partido com o nome bom. Vai ser uma decisão conjunta”, disse o prefeito paulistano.

Ao ser questionado sobre os problemas da capital paulista, Ricardo Nunes exaltou a realização de obras na cidade, mas  minimizou a situação dos dependentes químicos na Cracolândia. Ele admitiu não ter um novo plano traçado para a retirada dos dependentes da região central da capital, mas afirmou, sem apresentar dados concretos, que houve redução no índice de usuários de drogas e na criminalidade.

“Não, não tem [plano] e não é real que a situação era melhor. A sua posição é bastante equivocada de alguém que acompanha aquilo diariamente. Os índices de criminalidade caíram, os números de usuários caíram. Se você pegar lá no iG, nessa época vai ter muitas matérias e fotos que mostravam que tinham 4 mil pessoas, hoje tem mil e poucas pessoas”, declarou.

Nunes disse também que a pandemia atrapalhou o início dos trabalhos na prefeitura, mas disse prometeu dar um gás na gestão paulistana caso seja reeleito. Ele ainda atacou seu adversário, o deputado federal Guilherme Boulos, a quem chamou de ‘perigoso’.

“O que a gente espera das pessoas é que tenham um mínimo de não precisa ser muito não, pode ser um pouquinho só de inteligência, para observar que dentro do contexto político a gente tem que derrotar esse cara da extrema-esquerda que é um perigo, que é um cara dissimulado, é um cara que invade propriedade, é um cara que depreda propriedade, é um cara que é tudo de ruim que possa vir a acontecer para qualquer cidade”, afirmou.


Confira a entrevista completa

iG: Eu quero que o senhor faça uma breve explanação em relação ao seu mandato. Como foi seu mandato nesses dois anos e pouco que o senhor está na gestão da capital?

Nós assumimos dia 1 de janeiro de 2021. Logo em janeiro, o prefeito Bruno Covas tirou dez dias de licença médica para se tratar. A gente não esperava, porque o Bruno estava super bem e começou a ter uma piora muito rápida. E dia 16 de maio, infelizmente, perdemos o Bruno. Como é que foi o meu ano de 2021? Um dos mais difíceis da minha vida. Eu assumi a prefeitura no meio de uma pandemia, morriam 275 pessoas por dia na média móvel. Tive que vencer a dor de perder um amigo, um irmão e pegar a cidade naquela situação da pandemia.

A gente foi trabalhando, mas também se esforçando bastante para dar atendimento a essa demanda por conta da situação pandêmica. Em 2022 começamos bem, aí entrou uma nova onda, tanto é que tive que cancelar o carnaval. Aí a gente foi até quase o meio do ano com essa nova onda da Ômicron, da Covid. O resultado dessa energia e do trabalho de toda a equipe aqui, qual foi? Capital mundial da vacina, não faltou leito para ninguém de enfermagem, não faltou leito de UTI para ninguém, não faltou oxigênio para ninguém. As pessoas puderam enterrar seus entes queridos de forma digna. A gente deu um exemplo para o Brasil, para o mundo, de como lidar com uma questão tão complexa que foi a pandemia.

Mesmo assim, com essa questão da pandemia toda, a gente tem conseguido apresentar um resultado muito positivo para a cidade. São Paulo teve agora a classificação da FIT, a agência internacional, de triple A, alto grau de investimento, baixo endividamento. É uma situação que nos possibilita fazer um grande trabalho, ampliar os serviços, fazer um maior programa de recaptação da história da cidade, maior amplitude, ampliar equipamentos de saúde, não falta creche para nenhuma criança.

A cidade está bem arrumada. Eu acho que sempre vai faltar muita coisa para uma cidade-país que é São Paulo, mas os dados demonstram que a gente está com a cidade melhor do que estava, isso é fundamental. Eu fiz a reforma da Previdência, que era necessário fazer. Nós tínhamos R$ 171 bilhões de déficit atuarial, então fizemos o acordo da dívida com o governo federal. Eu propus ao presidente Bolsonaro, na época, fazer um acordo da dívida da cidade, que era de 24 bilhões. A gente pagava 280 milhões por mês de dívida. Com a questão judicial do Campo de Marte, que se estendia desde 1954 ou 56, tirei 280 milhões por mês de pagamento da dívida, a gente fez um trabalho muito forte de desburocratização, segurança jurídica, para as pessoas virem para cá e investirem aqui, isso resultou no fato de que, de 2021 para cá, 43 mil empresas saíram de outros estados, vieram para São Paulo, e outras 340 mil empresas novas abriram na cidade, Portanto, 384 mil empresas novas na cidade, gerando e fortalecendo a economia.

Outro ponto que a gente observou bastante forte foi a questão dos eventos e entretenimento, que dão muita geração de emprego e renda na cidade. Pega a FIA, a cidade de São Paulo é a única cidade do mundo que tem os três grandes eventos da FIA — Fórmula 1, Fórmula E e agora vai ter o WEC. Fora The Town, enfim, muitos eventos. Uma outra questão que a gente também observou é que tinha um potencial grande de geração de emprego, renda e movimentação financeira a questão da construção civil, principalmente dos empreendimentos imobiliários.

A gente estava com todos os PIUs (Projetos de Intervenção Urbana) travados na justiça, fezemos um trabalho, eu fui para Brasília, despachei com o ministro Humberto Martins (STJ), conseguimos uma liminar depois com a ministra Rosa Weber, enfim, trabalho jurídico da nossa procuradoria e o meu pessoalmente para poder destravar os PIUs, que são os programas de intervenção urbana. E isso está possibilitando a gente ter um grande número de investimentos imobiliários na cidade. De 2021 até o ano passado, foram 320 mil licenças para HIS — HIS é Habitação de Interesse Social. Então a economia é muito forte do ponto de vista de entretenimento, de eventos, na construção civil, muitas empresas vindo para cá, todas as empresas de tecnologia financeira, as maiores do Brasil, estão aqui. Eu acho que o resultado é positivo. Evidentemente, uma cidade como essa sempre vai ter problema, e nós temos que trabalhar muito.

Um dos maiores problemas de São Paulo é a Cracolândia. O senhor e o governador Tarcísio de Freitas chegaram a cogitar levar esses dependentes químicos para a região do Brás, mas isso gerou uma polêmica e mais um recuo do governo do estado e também da prefeitura. Eu queria saber do senhor o que está sendo estudado para resolver este problema, quais são os motivos dessa mudança de rota que vocês tiveram e qual é a solução que está em debate para resolver esse problema?

A Cracolândia é um problema de 30 anos, que hoje, tem ali em torno de mil e poucas pessoas que causam um abalo para uma cidade de 12 milhões de habitantes. Para você ver, uma cidade de 12 milhões de habitantes tem mil e poucas pessoas que causam todo esse problema do ponto de vista da informação. Todo jornalista que fala comigo fala desse tema como se fosse algo do tamanho que a cidade… É um problema grande, mas evidentemente não é proporcional ao tamanho da cidade. Fomos fazendo um trabalho muito forte de quebrar aquele grande núcleo para que os agentes de saúde, de segurança pública, de assistência social pudessem entrar e abordar as pessoas e estamos conseguindo. Estamos com mais de 2 mil pessoas em tratamento hoje e ainda tem esses mil e pouco lá.

Agora, a pesquisa da Unifesp, é preciso passar esse dado para a gente poder fazer uma análise correta do momento atual. A pesquisa da Unifesp nos traz que esses que ficaram, 57 % deles estão há mais de 5 anos e 39% há mais de 10 anos. Então, é óbvio que quem está há 5, 10 anos, 15 anos na Cracolândia, tem uma dificuldade muito grande de aceitar o tratamento. Ele já perdeu o seu discernimento, então é muito difícil. Chegou num ponto mais complexo para convencer as pessoas a irem se tratar. Agora, o que o Governo do Estado e Prefeitura estão fazendo? Nós estamos empenhados em não deixar esse problema no canto como antigamente. Hoje, a gente tem condições de ofertar o tratamento para todos. Se os 1.200, 1.300 que estão lá quiserem aceitar o tratamento, nós temos vagas para internar todos para tratamento.

Por outro lado, a questão da segurança, a Polícia Civil, Militar e a Guarda Civil Metropolitana atuando para prender os traficantes. E o terceiro ponto é a questão da reurbanização. A gente reurbanizou onde era a Praça do Cachimbo, hoje tem crianças brincando. A Praça da Princesa Isabel era aquele caos, hoje é uma praça que está toda reformada. Estou até concluindo uma outra parte da reforma lá, toda revitalizada. Todas aquelas regiões, aqueles hotéis todos que o governo do PT havia alugado para as pessoas ficarem usando o Crack, nós desapropriamos, estamos fazendo habitação, praças, enfim, vários espaços para aquela região. E o que a gente tem hoje, eu e o Tarcísio, é uma determinação nossa de que a gente não vai parar enquanto não resolver aquilo. Vamos persistir. Agora, tem um prazo? Não tem um prazo. É um negócio de 30 anos.

Vamos continuar atuando bastante fortemente, contando com o Judiciário. A gente estava com um problema grave, porque eram pessoas presas e o Judiciário acabava soltando. Agora, essa semana, tivemos uma decisão do Tribunal de Justiça muito importante, que foi manter a prisão de uma pessoa que estava lá na cena de uso e que tinha uma situação de benefício judicial, então ela não poderia estar ali. A Justiça recolheu essa pessoa. Então, tem muitos lá que estão nessa situação. Tem pessoas lá que são do crime, que precisam ser presas. Tem gente que está nessa [por] questão de saúde, que é dependência, tratamento e revitalizar. Vamos continuar atuando e trabalhando para poder resolver esse problema de 30 anos.

Edson Lopes Jr/Secom Ricardo Nunes assumiu a prefeitura em 2021, após a morte de Bruno Covas

Mas qual é o plano agora para resolver? Vocês têm discutido em tirar a Cracolândia daqui? Porque a gente tem visto saques acontecendo em plena luz do dia, em regiões da cidade que antes tinham uma situação muito melhor do que está atualmente. Vocês têm algum plano para recuperação dessa região e tirar esses usuários de drogas da região central e passar para algum outro ponto da cidade ou não?

Não, não tem e não é real de que a situação era melhor. Com todo carinho e respeito, [mas] a sua posição é bastante equivocada. Os índices de criminalidade caíram, o número de usuários caiu. O que a gente tem é uma situação, e até bom que assim seja, de maior atenção da imprensa com relação ao tema por conta das ações que a gente fez, que a gente teve que quebrar aquele grande núcleo para poder ter o acesso dos agentes de saúde e dos agentes de segurança. Até aqui já tiveram mais de 200 prisões de traficantes. Agora, o que a gente vai fazer? Continuar a insistir para as pessoas aceitarem o tratamento. Eu abri CAPS, foi inaugurado o HUB, inaugurei um centro de tratamento prolongado, temos as comunidades terapêuticas… Temos mais de 2 mil pessoas em tratamento ou em comunidade terapêutica, ou em CAPS, ou no CIATES, ou no tratamento prolongado e agora acho que a gente precisa atuar muito fortemente na questão do combate ao tráfico ali. Nos preocupa muito essa questão do STF querer liberar, por exemplo, a maconha, dizer que 60 gramas poderia ser utilizado. Eu vou ter que colocar o GCM como uma balancinha para andar? Dar uma balança para cada GCM?

A gente sabe que quem está no crack, muitos deles, a grande maioria, tiveram início da sua relação com as drogas a partir da maconha e foram evoluindo para outras drogas. Então, a gente tem uma preocupação séria com o que o STF está pensando para o nosso país do ponto de vista de criar formas que vai atrapalhar e vai prejudicar a vida das pessoas. Esse é um tema que nos preocupa bastante. É uma preocupação do STF fazer algo que vai prejudicar e muito a questão da Cracolândia. E, por outro lado, usar agora de tecnologia. A gente vai colocar ali 200 câmeras com reconhecimento facial para ajudar no monitoramento. Eu ampliei o número de guardas civis metropolitanas, ampliamos o número de IPMs. Estou fazendo agora a instalação de câmeras de reconhecimento facial para a gente poder ter a tecnologia atuando contra a criminalidade, porque as pessoas estão lá porque tem a droga. Se não tivesse a droga, elas não estariam lá. É um local que hoje o Brasil inteiro conhece como de fácil acesso às drogas.

E a gente espera também que o governo federal possa ter alguma atuação do ponto de vista de trabalhar as fronteiras, uma vez que a cocaína não é produzida no Brasil. O Brasil não produz cocaína e o crack é originário da cocaína. Então, é continuar trabalhando, persistindo. A situação está muito ruim, mas está bem melhor do que estava. A gente tem hoje essa determinação de que não vamos desistir até chegar no ponto de solucionar essa situação na cidade.

Estamos entrando já na reta inicial da eleição 2024. Já tem articulações, já tem conversas. E o senhor tem se colocado muito ao lado do governador Tarcísio de Freitas e também do ex-presidente Jair Bolsonaro para tentar angariar o apoio tanto do Republicanos, do Progressistas e também do PL. Eu queria saber, se reeleito, qual seria a participação tanto do governador quanto do ex-presidente no seu futuro governo?

A gente não discutiu isso. A eleição está longe no ano que vem, mas é notório que está todo mundo comentando esse tema e acaba sempre vindo na pauta. Eu tenho tido muito mais diálogos, por exemplo, com o Republicanos do que eu tenho com o PL. Mas é que, como o presidente Bolsonaro está no PL, acaba dando um foco, uma luz maior para essa questão. Com o governador Tarcísio, é lógico, eu falo com ele todo dia. Ontem eu falei com ele de manhã, tive com ele à noite. Eu saí do Palácio ontem, era oito, nove horas da noite. A gente fala por telefone, por WhatsApp, porque o trabalho nosso requer isso, tanto dos interesses do Estado como dos interesses da Prefeitura. Então, é natural que, pela questão de trabalho, a gente fale continuamente e tenha uma proximidade maior.

E, fora isso, a gente construiu uma amizade. Virou uma amizade muito natural e muito bacana. Do presidente Bolsonaro, jamais teve algum diálogo com relação ao espaço, com relação à participação. O que tem aí, eu diria para você, é um namoro. Espero que ele declare apoio a mim, até porque a gente está trabalhando em uma linha de ter um grupo de partidos que trabalha dentro da questão do centro e da direita. Então, unir esses partidos para a gente ter essa posição, até porque a esquerda já tem um candidato bem definido com o presidente Lula e o candidato do PSOL. A gente deve atuar dentro da área de centro e direita. É muito importante que o PL, o Tarcísio, o PP, os Republicanos, PSDB, União Brasil, PSD, enfim, todos os partidos dentro desse aspecto político de centro e direita possam estar juntos, que é o que aconteceu na eleição de 2020, que elegeu o Bruno e eu.

Entrando nessa área que você falou do ex-presidente Jair Bolsonaro, aí são vários tópicos que a gente poderia citar. Um deles é essa busca por esse apoio. O senhor tem se aproximado muito, mas o senhor não se coloca como bolsonarista. Dentre a cúpula bolsonarista, o nome do senhor não é lá muito preferido deles. Eles queriam que fosse o Ricardo Salles, que já retirou a candidatura por uma determinação do próprio ex-presidente Jair Bolsonaro. Qual é a importância desse apoio para o senhor e por que o senhor busca tanto o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro dentro de uma campanha?

As últimas eleições, quem foi eleito foi o Bruno Covas e eu, centro. Antes do Bruno, João Dória, centro. Antes do João Dória, o Haddad, que era de esquerda e não foi reeleito, perdeu no primeiro turno.

E lembrando que a eleição do Haddad se deu dentro de um contexto que a gente precisa observar. O Haddad abraçado com Paulo Maluf. As pessoas esquecem, é bom de vez em quando a gente dar uma refrescada. O Haddad buscou a direita, em uma foto simbólica, capa de vários jornais, inclusive o iG, dando um grande destaque, para o Haddad junto com o Paulo Maluf. Portanto, trazendo a direita, uma sinalização para a direita. Antes dele, o Kassab, centro. Antes do Kassab, o Serra, centro. Então, não é real que a gente tenha um eleitor de esquerda na cidade. A última eleição que teve um eleitor de esquerda foi o personagem Haddad abraçado com Paulo Maluf.

E tem um outro detalhe para a gente trazer para o tempo mais atual. A eleição do ano passado, no primeiro turno, os votos do Tarcísio, direita, mais o do Rodrigo Garcia, de centro, no primeiro turno, deram meio milhão de votos a mais do que o Haddad. Então, esse eleitor da cidade é muito mais de centro e direita do que de esquerda. Estão os dados aí. Você observa que teve esse caso que as pessoas falam: “Ah, o Haddad ganhou em São Paulo no segundo turno”. Mas tiveram uma série de episódios que aconteceram e teve uma situação do candidato colocado, era um candidato muito identificado da direita.

A cidade de São Paulo, estou falando pelos dados das eleições, não é nem de esquerda e nem muito de direita. Quando você colocou um cara da esquerda e da direita, aí tendeu um pouco mais para a esquerda, mas também naquele contexto da Zambelli, do Roberto Jefferson. Mas se você pegar o primeiro turno, a soma do Tarcísio, mais o Rodrigo Garcia, em cima do candidato de esquerda, dá meio milhão de votos a mais.

Alesp Prefeito paulistano tem se aproximado do ex-presidente Jair Bolsonaro em busca de capital político para as eleições do ano que vem

Mas a gente vê, por exemplo, o ex-presidente indo mais para a questão bolsonarista mesmo. Nas eleições presidenciais nós vimos uma disputa entre esquerda mais extrema e direita mais extrema com Bolsonaro e Lula no modo geral. A cidade, querendo ou não, ela é um pouco mais de centro. Um alinhamento com o ex-presidente Jair Bolsonaro, um bolsonarista, uma pessoa que tem pautas ideológicas. Qual a importância dele para a sua campanha?

Eu tive muito mais diálogos, por exemplo, com o Ciro Nogueira do que com o Bolsonaro. O problema é que o Bolsonaro foi presidente e aí tem uma luz para o presidente Bolsonaro. Agora, é importante, dentro dessa construção da eleição, a união de todos os partidos de centro e de direita, e o presidente Bolsonaro está inserido. Evidentemente, ele foi presidente do país, ele é um líder, dentro desse aspecto que eu vou trabalhar, que é o centro e a direita. Como o Lula é um líder da esquerda, é natural que eu busque ter o apoio de líderes. Como, por exemplo, o governador é um líder. Não tem muita essa preocupação com relação à questão do presidente Bolsonaro. Acho que vai ser natural o apoio dele. Espero que seja também do Tarcísio, até pelo nível de amizade que a gente construiu e dos demais partidos.

O Bolsonaro, acho que é um processo natural que vai vir porque o PL vem junto, porque os candidatos de extrema-direita não têm quase que chance aqui, como de extrema-esquerda, você vai ver isso na eleição, também tem muita pouca chance. É muito importante derrotar um cara de extrema-esquerda, que invade terra, que depreda, que não tem experiência para administrar, que é muito agressivo, que vai dar insegurança jurídica. Acho que está todo mundo muito preocupado em não deixar esse risco tomar conta da cidade.

Ainda em relação ao ex-presidente, ele está sendo investigado por algumas questões. Tem o caso da joias, tem a questão dos atos antidemocráticos, diversos inquéritos no Supremo. O senhor disse em entrevista ao Estadão que não é juiz. Mas todas essas investigações estão sobre caindo sobre ele, com a Polícia Federal fazendo operações contra aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Isso é uma coisa que te preocupa para a eleição, um apoio dessa magnitude, da importância que tem o ex-presidente Jair Bolsonaro por conta do seu capital político, mas em meio a uma série de investigações com seus aliados sendo cercados pela Polícia Federal. Isso é uma coisa que te preocupa?

Não. A minha vida inteira eu sempre fui um cara muito ponderado, mas também nunca fui covarde. Eu não vou ficar fazendo aqui uma situação de ficar em cima do muro com relação ao apoio do presidente Bolsonaro por conta de que tem uma investigação, uma matéria. Se o Lula levou 10 contêineres de presentes, agora porque o Bolsonaro ganhou um presente, estão fazendo uma situação totalmente fora da questão proporcional. Eu vou ser muito claro e objetivo. Eu quero, eu desejo o apoio do presidente Bolsonaro. Eu quero e desejo o apoio do Tarcísio, do PL, do Republicano, do União Brasil, enfim, de todos os partidos.

As investigações vão acontecer. Foi aquilo que eu falei para os jornalistas. Eu não sei o que está acontecendo porque eu não sou polícia, eu não sou juiz, eu não tenho informação das coisas. Lembrando que o Haddad foi para o segundo turno em 2018, e o Lula estava preso. Acho que essas coisas a gente precisa ter muita tranquilidade e não ficar fazendo suposição, acusação, sem ter uma conclusão da investigação. Infelizmente a gente vive uma situação no Brasil e em vários países do mundo de acusações que depois você vê que são infundadas. Evidentemente todos nós, se alguém cometer algum erro, queremos que pague pelo que fez. Agora eu não vou ficar aqui julgando ou ficar baseado em tese porque está sendo investigado por isso ou por aquilo, não. Eu sou o homem suficiente para dizer que eu quero o apoio do presidente Bolsonaro, do Tarcísio, do PP, do Republicanos, do União Brasil. Não vou ficar aqui me esquivando, sendo covarde, não.

Então as investigações não te preocupam em relação ao capital político, nem um pouco?

Zero. Absolutamente zero. Todo agente público tem que ser investigado, é o que tem que ser feito. Pelo fato de estar sendo investigado, nenhum problema, as pessoas precisam dar explicação, as pessoas públicas quando entram na vida pública sabem que têm que dar explicação, colocar à disposição das autoridades todas as informações, e eu acho que o presidente está fazendo isso.

Em relação ao apoio dos bolsonaristas, existe um seríssimo receio sobre o senhor, a base gostaria de um candidato próprio. O senhor se preocupa com essa falta do apoio? Você acha que pode ser um fogo amigo?

O que a gente espera das pessoas é que tenham um mínimo de — não precisa ser muito não — um pouquinho só de inteligência. Tendo um mínimo de inteligência, as pessoas poderão observar que, dentro do contexto político, a gente tem que derrotar esse cara da extrema esquerda que é um perigo, que é um cara dissimulado, é um cara que invade propriedade, é um cara que depreda propriedade, é um cara que é tudo de ruim que possa vir a acontecer para qualquer cidade. Então, considerando que a gente espera que as pessoas tenham o mínimo de inteligência, que elas possam observar que a gente está dentro de um contexto de uma disputa, e que às vezes é preciso apoiar um candidato sem simpatizar 100% com ele.

Deram o nome da ex-prefeita Marta Suplicy como provável vice do senhor, ideia que parece já ter sido barrada, já que a indicação estaria prometida ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Agora estão dizendo que poderia ser a Sonaira, que é a secretária da mulher. Quem pode ser o seu vice? Quem são os candidatos para isso? E qual perfil de vice o senhor gostaria de ter?

Olha, quando a gente chega a quase 60% de aprovação no governo que nenhum outro prefeito recente teve no ano anterior à eleição, evidentemente a questão do vice desse candidato acaba tendo bastante movimentação. Esse tema, como em todas as eleições, vai ser discutido lá no ano eleitoral, perto das convenções. Já me falaram do Delegado Nico. Da Sonaira é a primeira vez, nunca tinha escutado. Já escutei da vereadora Rute Costa, da ex-prefeita Marta Suplicy, da deputada Maria Rosas. Agora, o que vai acontecer lá no ano que vem, eu estou combinando com todo mundo, a gente vai sentar todos os partidos e aí definirmos conjuntamente. Cada partido vai colocar ali as suas considerações e ponderações.

Dizem que o PL é o maior partido, e é verdade. É um partido que tem o maior tempo de televisão e isso pesa. Agora vamos supor que o PL venha com um nome que não seja um que vá agregar. Aí vem o outro partido com o nome bom. Vai ser uma decisão conjunta. Eu evidentemente tenho que ter a minha concordância, mas o nome do vice vai ser uma decisão conjunta. E o próprio presidente Bolsonaro falou para mim e declarou, inclusive, publicamente, que ele não faz questão de indicar o vice. E que não faz questão, inclusive, de que o vice seja do PL. 

Tem que ser alguém que conheça a cidade, o que é fundamental. Que tenha um bom conhecimento da cidade para me ajudar. E que a gente tenha algo que agregue para a chapa. Não pode ser alguém que não tenha conhecimento profundo da cidade que não agregue nada, só para dizer que é do partido A ou B. Por isso que eu quero fazer uma discussão com todos os partidos. E a gente cria uma disputa saudável.

Embora o senhor tenha uma certa aprovação de governo, muita gente ainda questiona quem é o prefeito de São Paulo.  O senhor, na teoria, para uma boa parte da cidade ainda vive no anonimato. Como que para a eleição o senhor pretende reverter esse cenário e passar de Ricardo Nunes, o vice-prefeito do Bruno Covas, para ser Ricardo Nunes, candidato a prefeito ou atual prefeito de São Paulo?

As pesquisas não demonstram isso. A gente observa que os candidatos, por exemplo o Bruno, um ano antes da eleição, também tinha um nível de conhecimento que não era aquilo que se imagina para quem é o prefeito. O Kassab também. O que é muito importante é que a administração seja vista pelas pessoas, que as mães hoje que quiserem por seu filho na creche tenham a vaga. Do maior problema habitacional, do maior problema de recapeamento, de que estejamos fazendo um trabalho na cidade e que as pessoas reconheçam o trabalho. Essa questão do nome não tem muita importância, não. Vai ter tempo na campanha para a gente poder colocar o nosso trabalho, apresentar o que a gente fez, o que a gente vai fazer, mostrar as nossas qualidades, dizer o que a gente pôde concretizar à frente da prefeitura e o que que a gente de fato vai poder fazer.

Eu nunca invadi casa de ninguém, nunca depredei. A cidade, por essa segurança jurídica, está trazendo muitas empresas, fazendo com que a economia gire de forma muito positiva. E o que as pessoas querem é isso, ter uma qualidade de vida, viver em paz, sair dessa brigalhada toda. Esse é um tema que não me preocupa agora. Eu tenho cerca de 80% de nível de conhecimento, é muito alto.

Se o senhor for reeleito no ano que vem, o que pretende fazer de diferente que não fez até agora para a cidade?

Os próximos quatro anos serão muito bons para a cidade. Você vê, eu vou iniciar um novo mandato — se Deus permitir — sem ter que passar por essa questão da pandemia, que exigiu muita energia nossa, muita dedicação, vamos poder trabalhar dentro de condições, com a cidade totalmente organizada, com as finanças da cidade organizadas, com planejamento. Quatro anos é um tempo bastante curto, ainda mais quando você perde praticamente um ano e meio cuidando de pandemia. A gente hoje tem um monte de projetos que precisam de um tempo de maturação. Inaugurei uma UPA, a UPA Vila Carrão. Foi a décima que eu inaugurei! Eu vou inaugurar mais oito até o final do ano que vem e eu tenho nove em construção para entregar em 2025. O BRT Radial leste, a gente conseguiu concluir o projeto, concluir o planejamento de recursos para poder lançar essa obra. Então, a gente vai ter muita coisa já que planejamos agora para poder fazer as entregas em 2025.

Eu e qualquer prefeito que ganhar, vai ter uma cidade, do ponto de vista financeiro de planejamento, muito bem estruturada. Até 2020, só tinhamos 20 hospitais em São Paulo, hoje temos 30. É um outro patamar da cidade, que tem agora uma capacidade enorme de crescer cada vez mais. Não tenho dúvida que nos próximos quatro anos teremos uma revolução na cidade em vários aspectos, principalmente nas áreas mais periféricas. Vamos poder transformar as favelas em bairros, fazer as regulações fundiárias. Só agora tive liberado o meu contrato para fazer a ação fundiária, estava parado no tribunal até pouco tempo. Então, eu tenho recurso, estou com as ações destravadas e, agora, é só fazer as entregas. Acho que daria para a gente atuar muito mais, como já estamos atuando, nessas ações de diminuição da desigualdade social.

Fonte: ULTIMOSEGUNDO.IG.COM.BR