Uigures denunciam estupros em campos de concentração em Xinjiang

Bandeira chinesa em frente campo de “reeducação” de uigures em Yangisar, em Xinjiang, China, 4 de junho de 2019Bandeira chinesa em frente campo de “reeducação” de uigures em Yangisar, em Xinjiang, China, 4 de junho de 2019| Foto: GREG BAKER / AFPOuça este conteúdo

Estupros, abusos sexuais e tortura ocorrem de maneira sistemática nos campos de concentração de minorias em Xinjiang, relataram à BBC ex-detentas que já não vivem mais na China. Uma reportagem da emissora de TV britânica, publicada nesta terça-feira, traz o relato de Tursunay Ziawudun, uma uigur que diz ter sido vítima desses crimes enquanto estava “internada” em um campo de “reeducação” – como a ditadura comunista se refere aos campos de concentração para minorias na província de Xinjiang.

Embora a BBC não tenha conseguido verificar toda a história contada por Ziawudun, declarações de outras ex-detentas e de um ex-guarda de um dos campos retratam histórias semelhantes. A descrição que ela fez do campo onde foi presa e documentos de viagens e imigração que ela mostrou aos repórteres também serviram para corroborar a história.

Tursunay Ziawudun conta que foi detida em março de 2018, enquanto o marido estava no vizinho Cazaquistão a trabalho. Ambos haviam sido presos brevemente entre 2016 e 2017, quando retornaram à China depois de viver cinco anos no Cazaquistão. Contudo, depois que o marido de Ziawudun viajou, as autoridades locais a prenderam novamente, alegando que ela precisava de “mais educação”.

Ziawudun disse que foi conduzida ao mesmo campo onde havia sido detida anteriormente, mas o local estava diferente, maior e recebendo um grande número de novos prisioneiros. Ela contou que, ao entrar no campo de detenção, as mulheres tinham suas joias confiscadas. Também foram humilhadas pelos guardas e obrigadas a cortar o cabelo.

As torturas, segundo o relato, começaram após dois meses de detenção, em interrogatórios que buscavam saber mais sobre as atividades do marido no Cazaquistão. Ela contou à BBC que certa vez um policial a jogou no chão e a chutou quando ela resistiu em responder. Depois, começaram os estupros. Em uma noite, ela e uma outra menina foram levadas a “quartos escuros”, onde foram abusadas. “Uma mulher me levou para o quarto ao lado de onde a outra garota havia sido levada. Eles tinham uma vara elétrica, eu não sabia o que era, e isso foi enfiado dentro do meu trato genital, me torturando com um choque elétrico”, contou à BBC.

Ziawudun disse também que outras mulheres eram tiradas à força de suas celas todas as noites e estupradas por um ou mais homens mascarados. Ela contou que foi torturada e estuprada por dois ou três homens em três ocasiões.

Outro depoimento obtido pela emissora britânica é o de Gulzira Auelkhan, uma mulher cazaque de Xinjiang que ficou detida por 18 meses em um dos campos chineses. Ela disse que era obrigada a despir as mulheres e algemá-las. “Então, eu deixava as mulheres no quarto e um homem entrava – algum chinês de fora ou policial. Sentava em silêncio ao lado da porta e quando o homem saia da sala, eu levava a mulher para tomar banho”. Segundo o relato de Auelkhan, os abusadores pagavam para escolher as prisioneiras mais jovens e bonitas.

Outras duas mulheres que foram forçadas a trabalhar em campos de “reeducação” como professoras disseram à emissora britânica que circulavam relatos de que havia uma cultura de estupro dentro dos campos, em que as mulheres eram violentadas, inclusive com choques. Uma delas contou que uma jovem de cerca de 20 anos foi estuprada por vários homens em frente a cerca de 100 outros detentos para fazer uma confissão forçada. “Depois disso, na frente de todos, os policiais se revezaram para estuprá-la”, disse Sayragul Sauytbay. “Enquanto realizavam este teste, eles observaram as pessoas de perto e escolheram qualquer um que resistisse, cerrasse os punhos, fechasse os olhos ou desviasse o olhar e os levavam para punição”.

Além dos estupros e da tortura, elas eram obrigadas a passar por exames, tomar pílulas e injeções. Também passavam fome. “Você se esquece de pensar na vida fora do campo. Não sei se eles fizeram uma lavagem cerebral em nós ou se foi o efeito colateral das injeções e pílulas, mas você não consegue pensar em nada além de desejar estar com o estômago cheio. A privação de comida é muito severa”, contou Ziawudun.

Um ex-guarda de um dos campos de concentração contou à BBC que os detidos eram obrigados a decorar passagens de livros sobre o presidente chinês Xi Jinping e, se não conseguissem, as punições incluíam privação alimentar e espancamentos. Ele afirmou não saber sobre casos de estupro, mas confirmou que os guardas dos campos usavam instrumentos de eletrocução.

Ziawudun foi libertada em dezembro de 2018, junto com outras detentas que tinham parentes no Cazaquistão. Seu passaporte foi devolvido e ela retornou ao Cazaquistão e hoje vive nos EUA, onde espera o marido, que ainda está morando no Cazaquistão. Ela também contou à BBC que uma semana depois de chegar aos Estados Unidos, teve que fazer uma cirurgia para remover o útero. “Perdi a chance de ser mãe”, disse.

O governo chinês não respondeu diretamente às perguntas da BBC sobre alegações de estupro e tortura. Em um comunicado, um porta-voz disse que os campos em Xinjiang não são campos de detenção, mas sim “centros de educação e treinamento vocacional”. Nesta quarta-feira (3), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China afirmou, quando questionado sobre a reportagem, que as pessoas entrevistadas pela BBC são conhecidas por serem “atores que disseminam informações falsas”.

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Fonte: GAZETADOPOVO.COM.BR