Um ano de mortes e descaso para trabalhadores da saúde na Venezuela

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Enfermeira prepara dose da vacina russa Sputnik V em 11 de junho de 2021, no Hotel Alba em Caracas (Venezuela).Enfermeira prepara dose da vacina russa Sputnik V em 11 de junho de 2021, no Hotel Alba em Caracas (Venezuela).| Foto: Rayner Peña/Agência EFE/Gazeta do PovoOuça este conteúdo

Há exatamente um ano, os trabalhadores da área da saúde na Venezuela se despediram de seu primeiro colega morto depois de ter sido infectado pelo coronavírus enquanto atendia a pacientes de Covid-19. Desde então, 651 colegas dele foram vítimas do SARS-CoV-2 no país.

Samuel Viloria era médico no estado de Zulia e não deveria estar na linha de frente porque estava sendo submetido a um transplante renal. A informação foi dada à Agência Efe pelo diretor-executivo da ONG Médicos Unidos de Venezuela (MUV), Jorge Lorenzo.

Desde então, outros 650 trabalhadores da saúde morreram de Covid-19, de acordo com as contas da MUV. Porém, Lorenzo acredita que esse número é o que eles conseguiram documentar e não condiz com o real, que seria bem maior.

O último relatório, divulgado nesta quarta-feira, mostra que 13 trabalhadores de saúde morreram com critérios para a Covid-19 em três dias, e a quantidade de vítimas entre eles continua crescendo. Enquanto isso, os profissionais reclamam que não possuem equipamentos de proteção suficientes e que alguns ainda não foram vacinados.

Descaso do regime

O número da ONG contrasta com o número oficial de mortes por Covid-19 desde o início da pandemia, que segundo o governo foi de 2.865 até esta terça-feira – um dado colocado em questão por associações e sindicatos médicos que acreditam que muitas vítimas da doença não foram incluídas nas listas.

Segundo Lorenzo, que também duvida das informações oficiais, esse baixo número se deve em grande parte à falta de testes PCR e ao controle das informações sobre a pandemia pela ditadura de Nicolás Maduro.

Quando se trata de considerar as razões da mortalidade entre os profissionais de saúde, o médico, especialista em saúde pública, diz que as autoridades do regime em momento algum atenderam às solicitações e necessidades dos profissionais.

“Mesmo quando a epidemia começou, fizemos uma pesquisa para saber como estava preparado o sistema de saúde e como era necessária a proteção que presumíamos”, relatou.

O diretor da MUV destacou que as conclusões foram claras: eles não tinham equipamento, pessoal ou treinamento suficientes para lidar com a pandemia, e 12 meses depois, a situação não mudou. “Nunca nos preparamos, nunca tivemos a visão de ‘vamos proteger os trabalhadores da saúde'”, reclamou, denunciando a atitude das autoridades.

Segundo Mauro Zambrano, coordenador do Monitor Salud, que reúne numerosos funcionários do setor, e representante dos sindicatos dos trabalhadores dos hospitais e clínicas de Caracas, as infecções entre os trabalhadores se multiplicam “porque não são feitos os testes de triagem necessários” entre 75 e 78% dos casos. “Portanto, um trabalhador que vai trabalhar, se você não fizer a triagem adequada, pode ser infectado”, salientou.

Ainda segundo Zambrano, há uma escassez de luvas que gira em torno de 56%, e apenas 3% dos centros de saúde possuem todos os equipamentos de proteção necessários. Além disso, apenas 6% dos centros têm sabão ou desinfetante suficiente para manter uma assepsia adequada, e 27% têm abastecimento de água entre 19 e 24 horas por dia, de acordo com os dados disponíveis.

Entre a angústia e a depressão

Além do medo de contágio, os trabalhadores da área da saúde venezuelanos enfrentam salários que, na maioria dos casos, são inferiores a R$ 50, a frustração de não serem ouvidos e a sobrecarga de trabalho.

Entre a migração e o pessoal médico que optou por procurar outras alternativas que lhes permitam viver melhor, Zambrano estima que entre 22% e 25% dos trabalhadores estão frequentando centros de saúde. Ou seja, três em cada quatro estão fora, e os demais devem compensar sua ausência com um esforço adicional.

“O pessoal está cansado, fatigado e, como houve tantas demissões, o principal problema é das pessoas que ficam trabalhando. Nesta noite haverá uma enfermeira a serviço de 40 ou 50 pacientes, ou vários serviços no mesmo andar sem descanso à noite”, detalhou Lorenzo.

Diante dessa situação, os psiquiatras da Médicos Unidos lançaram um estudo entre os trabalhadores que mostra que 72% deles apresentavam sintomas de ansiedade. Além disso, 73% dos pesquisados, todos eles do pessoal médico de diferentes áreas, apresentavam sintomas de depressão.

Lorenzo comentou que os resultados são “valores muito altos”, que estão acima dos países nos quais estudos semelhantes foram feitos. A amostra mais dura de um pessoal que mostra cansaço, exausto pela pandemia, más condições laborais e, especialmente, por não ser ouvido depois de um ano se despedindo de colegas.

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Fonte: GAZETADOPOVO.COM.BR