A entrada da China na OMC mudou o mundo – mas não como o Ocidente queria

Como você se sentiu com essa matéria?

Fábrica de brinquedos na China: preços baixos para todo o mundo, mas também perda de empregosFábrica de brinquedos na China: preços baixos para todo o mundo, mas também perda de empregos| Foto: EFE/EPA/ALEX PLAVEVSKIOuça este conteúdo

Quando se pensa num fato de 2001 que mudou o mundo, o primeiro pensamento que vem à mente é a lembrança dos atentados de 11 de setembro. Entretanto, um fato ocorrido em 11 de dezembro daquele ano produziu uma mudança ainda mais decisiva na geopolítica mundial, pela via econômica: a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Hoje o grande rival chinês no que vem sendo chamado de Guerra Fria 2.0, os Estados Unidos apoiaram a adesão do país mais populoso do mundo, sob o argumento que a liberdade econômica poderia levar também à abertura política, esta uma realidade que continua muito distante.

Do ponto de vista econômico, desde a entrada na OMC, a China atingiu feitos impressionantes: passou de oitava para segunda economia do mundo (deverá ser a primeira antes do fim desta década) e viu o índice de pobreza extrema da sua população passar de 32% em 2002 para 0,5% em 2016, de acordo com dados do Banco Mundial.

Para o resto do mundo, há dúvidas sobre esse legado. Se a entrada da China na OMC abriu um mercado gigantesco para exportações de vários países (como as do agronegócio brasileiro, por exemplo) e propiciou preços baixos de produtos em todo o mundo, a concorrência chinesa representa perda de empregos: um relatório do ano passado do Instituto de Política Econômica dos Estados Unidos mostrou que o crescente déficit comercial do país com a China representou a perda de 3,7 milhões de postos de trabalho entre 2001 e 2018.

Outros efeitos colaterais não previstos em 2001 foram o aumento do poder de barganha chinês na geopolítica mundial, que a torna uma ameaça militar crescente e atrai mais países para seu raio de influência, e seu novo status como maior poluidor do mundo.

Críticos apontam que a concorrência chinesa é desleal em muitos aspectos (um deles, as jornadas e condições de trabalho abusivas, como trabalhos forçados em Xinjiang) e que a China nunca se transformou numa típica economia de mercado.

“A China trouxe tecnologia e propriedade intelectual do Ocidente às vezes legalmente, às vezes ilegalmente, e então usou seu grande mercado interno para aperfeiçoar produtos, se tornar muito eficiente em produzi-los e fazer crescer empresas muito grandes e capazes, muitas vezes de propriedade estatal, muitas vezes com base em subsídios”, explicou Jennifer Hillman, professora no Georgetown Law Center e ex-comissária da Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos, em entrevista ao site Politico.

“Eles se tornaram hipercompetitivos em vários setores, possivelmente devido a comportamento ilegal perante a OMC, mas isso muitas vezes não foi questionado porque os regramentos de subsídios do acordo com a OMC simplesmente não são eficazes”, acrescentou.

Em artigo recente publicado no site da Bloomberg, os setoristas de economia Bryce Baschuk e Enda Curran destacaram que a China nunca integrou totalmente sua economia socialista a uma organização criada e destinada para economias de mercado.

“Existem pelo menos três causas para isso: as regras da OMC eram inadequadas para lidar com as práticas distorcidas de comércio mais prejudiciais da China; o governo chinês, na verdade, aumentou seu controle sobre os principais aspectos da economia; e os outros países não se aproveitaram totalmente das ferramentas de fiscalização da OMC para responsabilizar a China”, argumentaram.

Baschuk e Curran apontaram que o governo dos Estados Unidos vem adotando uma política mais agressiva para corrigir essas distorções, como aplicação de tarifas mais pesadas sobre importações da China, e buscando apoio de aliados para criar dificuldades para Pequim.

“Se os Estados Unidos conseguirem alinhar uma coalizão grande o suficiente em torno de um conjunto de novas regras para corrigir as falhas da entrada da China na OMC, isso poderá representar a maior reforma do sistema de comércio global em um quarto de século”, projetaram.

Deixe sua opinião

Como você se sentiu com essa matéria?

Veja mais matérias que causaram reações nos leitoresAtualizado às

Encontrou algo errado na matéria?comunique errosSobre a Gazeta do PovoxSobre a Gazeta do Povo

Fonte: GAZETADOPOVO.COM.BR