Ibovespa fecha o mês com queda de 10%, pior desempenho em dois anos

Felipe Moreno Bolsa sobe, com sinalizações de apoio da China; dólar tem volatilidade

O que parecia ser um pregão positivo para a Bolsa acabou sendo o desfecho de um mês para esquecer. Pressionado pelo desempenho ruim dos índices acionários americanos, o Ibovespa teve baixa de 1,86%, aos 107.876 pontos, nesta sexta-feira.

Com a nova queda, o principal índice da B3 teve queda em abril de 10,10%. É o primeiro mês negativo no ano e o de pior desempenho desde março de 2020, quando houve queda de 29,90% devido ao início da pandemia.

No acumulado do ano, o Ibovespa ainda sobe 2,91%

“Foi motivado pelo cenário internacional. Tivemos um mês marcado por uma fala mais contracionista do Jerome Powell (presidente do Fed), onde ele assume um aumento maior da taxa de juros americano, preocupações sobre o crescimento da economia na China e uma saída de fluxo (do mercado local)”, destaca o economista chefe da Messem, Gustavo Bertotti.

No início do pregão, o mercado doméstico chegou operar com altas superiores a 1% diante de sinais de estímulo à economia por parte de autoridades chinesas.

“O mercado acabou virando muito pautado pelo exterior. A narrativa é a mesma de antes, com as reuniões do Fed e do Copom e expectativas de mais altas de juros para segurar essa inflação galopante mundo afora”, destaca o diretor da mesa de renda variável da Lifetime Investimentos, Vitor Carettoni.

O dólar, por sua vez, fechou em alta de 0,02%, negociado a R$ 4,9425 após atingir a mínima de R$ 4,8598.

No mês, o dólar teve valorização de 3,85%. No ano, ainda acumula queda de 11,34%

O câmbio alternou altas e baixas ao longo do dia, influenciada pelas movimentações do dólar no exterior e pela formação da taxa Ptax de fim de mês, taxa usada pelo Banco Central (BC), que costuma trazer volatilidade.

A taxa é calculada com base nos valores praticados no mercado financeiro ao longo do dia. No fim de cada mês, os agentes financeiros tentam direcioná-la para valores mais favoráveis às suas posições.

Quem está “comprado” em dólar aposta na alta e quem está “vendido” aposta na baixa. Ambos os players tentam negociar de modo que isso se reflita no fechamento do dia.

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Por que caiu tanto?

Juros americanos

Ao longo do mês de abril, o mercado doméstico sofreu com pressões já conhecidas, mas que foram intensificadas. A maior parte delas vem do exterior.

Nos Estados Unidos, dirigentes do Federal Reserve, Banco central do país, deram sianlizações de que o já esperado processo de aperto monetário deverá ser ainda mais agressivo.

As elevações das taxas de juros ocorrem em um cenário de inflação alta e persistente no país, combinada com um mercado de trabalho apertado.

Nesta sexta-feira, foram divulgados novos números sobre a inflação. O índice de preços de gastos com consumo pessoal avançou 0,9% em março em relação ao mês anterior. Na base de comparação anual, houve avanço de 6,6%, maior alta desde 1982.

O núcleo do índice, que exclui componentes voláteis de alimentos e energia, subiu 0,3% ante o mês anterior. Na base anual, houve avanço de 5,2%, ligeira desaceleração ante os 5,3% registrados em fevereiro.

Os números, que foram divulgados pelo Departamento do Comércio americano, vieram levemente acima das expectativas.

Os gastos pessoais dos consumidores americanos subiram 1,1% em março na comparação com fevereiro. A renda pessoal, por sua vez, subiu 0,5%, em alta de US$ 107,2 bilhões.

O Fed tem encontro marcado na próxima semana, no qual deve promover um segundo aumento consecutivo nas taxas, e de magnitude superior ao 0,25 ponto percentual visto na reunião de março.

Além dos juros, o banco deve reduzir seu balanço de títulos, contribuindo para enxugar ainda mais a liquidez global.

A alta nos juros americanos faz com que os títulos de renda fixa do país se tornem mais atrativos.

Com isso, os investidores tendem a ser mais seletivos no momento de aportar seus recursos. Mercados emergentes e que trazem mais riscos, como é o caso brasileiro, costumam ser mais penalizados.

Nesta sexta, o índice Dow Jones cedeu 2,77% e o S&P, 3,63%. A Bolsa Nasdaq caiu 4,17%.

No país, além dos dados de inflação, influenciou no comportamento das bolsas os resultados corporativos de empresas importantes, como a Apple e a Amazon.

Os papéis da Amazon, negociados em Nasdaq, tiveram queda de 14,05% após a empresa anunciar o ritmo de crescimento de vendas ser o mais lento desde 2001.

Foi a maior queda em um dia desde julho de 2006, com as ações fechando no nível mais baixo desde junho de 2020. A venda fez com que a empresa perdesse US$ 206,2 bilhões em valor de mercado.

“O resultado da Amazon era algo que o mercado aguardava muito. E o índice de preços teve uma alta acima das expectativas”, disse Bertotti, sobre a baixa nas bolsas americanas.

Covid-19 na China

Da China, surgem novas preocupações com relação ao avanço dos casos de Covid-19 e seus impactos para a atividade econômica, como os gargalos na cadeia produtiva.

Com o anúncio de novos lockdowns por parte do governo chinês, cresceram os receios sobre o crescimento do país para o restante do ano, o que impacta o mercado de commodities e os papéis ligados a esses produtos.

“Novas políticas de fechamento de fábricas e portos na China trouxeram um grande medo de que o país parasse sua produção, o que seria muito prejudicial para a economia mundial”, disse o sócio da Nexgen Capital, Felipe Izac.

Izac também ressalta que a continuidade da guerra entre Ucrânia e Rússia alimenta ainda mais a inflação nos países, pressionando posturas mais agressivas por parte dos BCs.

Nesta sexta, um dos principais órgãos do Partido Comunista afirmou, em sua reunião mensal, que o governo deve definir medidas de suporte à economia, na tentativa de estabilizar o consumo e estimular o crescimento.

Entre as medidas anunciadas, estão o apoio a indústrias e pequenas empresas atingidas pela Covid-19, aceleração do trabalho em infraestrutura e transporte e estabilização da logística e cadeias de suprimentos.

A sinalização, no entanto, não foi suficiente para conter o sentimento negativo vindo dos Estados Unidos.

Menor entrada de fluxo

Um fator que ajudou e muito o mercado doméstico no primeiro trimestre, foi a forte entrada de recursos estrangeiro. Mas assim como o Ibovespa, esse fluxo está negativo em abril.

Até o pregão do dia 27 de abril, o fluxo estrangeiro no segmento secundário da B3, aquele com ações já listadas, estava negativo em R$ 5,32 bilhões. O saldo anual ainda é positivo em R$ 60,002 bilhões.

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A entrada de recursos de fora é importante para o bom desempenho do mercado interno, até porque os saques dos investidores locais, que ocorrem desde o segundo semestre do ano passado, continuam.

Commodities e bancos ajudam Ibovespa

Entre as ações, as ordinárias da Vale (VALE3, com direito a voto) avançavam 1,91%, e as da Siderúrgica Nacional (CSNA3), 0,88%.

As preferenciais da Usiminas (USIM5) tinham alta de 0,25%.

Na China, um dos principais órgãos do Partido Comunista afirmou, em sua reunião mensal, que o governo deve definir medidas de suporte à economia, na tentativa de estabilizar o consumo e estimular o crescimento.

Entre as medidas anunciadas, estão o apoio a indústrias e pequenas empresas atingidas pela Covid-19, aceleração do trabalho em infraestrutura e transporte e estabilização da logística e cadeias de suprimentos.

A adoção de lockdowns nas últimas semanas em cidades importantes elevou as preocupações nos mercados sobre o crescimento do país no restante do ano, o que impactou o preço de commodities importantes como o petróleo.

As ordinárias da Petrobras (PETR3) subiam 3,71%, e as ordinárias (PETR4), 3,77%, em linha com o avanço do petróleo no exterior.

Os papéis ON da PetroRio (PRIO3) avançavam 5,25%, e os da 3RPetroleum (RRRP3), 5,67%.

No setor financeiro, as preferenciais do Itaú (ITUB4) e do Bradesco (BBDC4) tinham altas de 0,53% e 1,04%, respectivamente.

Na quinta-feira, o governo publicou no Diário Oficial,  medida provisória (MP) para aumentar o imposto dos bancos.

A medida mexe na Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), subindo a alíquota de 20% para 21% no caso dos bancos a partir de agosto. E de 15% para 16% para corretoras, seguradoras e distribuidoras de valores mobiliários.

A mudança é temporária e válida apenas até o fim deste ano. Com isso, o governo espera arrecadar mais R$ 244 milhões. O valor será uma das fontes de recurso para para compensar o programa de renegociação de débitos tributários (Refis) de empresas do Simples Nacional e de microempreendedores individuais (MEIs).

“A elevação da CSLL veio com um pequeno aumento de 20% para 21%. Essa notícia deve ser positiva, porque quando foi ventilado esse aumento há algumas semanas, o setor devolveu bastante. A aprovação de aumento em apenas 1% deve fazer o setor reagir bastante hoje”, ressalta Carettoni.

Setor de shoppings avança

Outro segmento que apresentava altas no início do pregão era o de shoppings. As ordinárias da BRMalls (BRML3) subiam 2,87%. Segundo informou o colunista Lauro Jardim, a empresa chegou a um acordo com a Aliansce Sonae para a combinação de negócios, após vários meses de negociação.

Os papéis ON da Aliansce (ALSO3) subiam 2,22%. As ordinárias da Multiplan (MULT3) tinham alta de 4,89%, após divulgação do balanço do primeiro trimestre.

A empresa reportou lucro líquido de R$ 171,5 milhões no primeiro trimestre de 2022, avanço de 270% frente ao resultado do mesmo período de 2021.

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Os papéis ON do Iguatemi (IGT3) subiam 3,83%.

EUA: inflação em alta

Nos EUA, o índice de preços de gastos com consumo pessoal avançou 0,9% em março em relação ao mês anterior. Na base de comparação anual, houve avanço de 6,6%, maior alta desde 1982.

O núcleo do índice, que exclui componentes voláteis de alimentos e energia, subiu 0,3% ante o mês anterior. Na base anual, houve avanço de 5,2%, ligeira desaceleração ante os 5,3% registrados em fevereiro.

Os números, que foram divulgados pelo Departamento do Comércio americano, vieram levemente acima das expectativas.

Os gastos pessoais dos consumidores americanos subiram 1,1% em março na comparação com fevereiro. A renda pessoal, por sua vez, subiu 0,5%, em alta de US$ 107,2 bilhões.

Os números são importantes, pois influenciam nas decisões de política monetária do Federal Reserve, Banco Central americano.

O banco tem encontro marcado na próxima semana, no qual deve promover um segundo aumento consecutivo nas taxas de juros do país, e de magnitude superior ao 0,25 ponto percentual visto na reunião de março a fim de combater a inflação elevada.

Por volta de 13h, no horário de Brasília, o índice Dow Jones cedia 1,31% e o S&P, 1,63%. A Bolsa Nasdaq caía 2,07%.

No país, além dos dados de inflação, deve influenciar no comportamento das bolsas os resultados corporativos de empresas importantes, como a Apple e a Amazon.

Os papéis da Amazon, negociados em Nasdaq, tinham queda de 12,97% após a empresa anunciar o ritmo de crescimento de vendas ser o mais lento desde 2001.

Petróleo sobe

Os preços dos contratos futuros do petróleo apresentavam altas, refletindo receios sobre a oferta da commodity.

Por volta de 13h, no horário de Brasília, o preço para o contrato de junho do petróleo tipo Brent subia 1,78%, negociado a US$ 109,50, o barril.

Já o preço para o mesmo mês do tipo WTI avançava 1,02%, cotado a US$ 106,43, o barril.

PIB da zona do euro desacelera e inflação avança

Na Europa, as bolsas operavam com altas. Por volta de 13h, em Brasília, a Bolsa de Londres subia 0,47% e a de Frankfurt, 0,84%. Em Paris, ocorria avanço de 0,39%.

No continente, o destaque também vai para a divulgação de importantes dados macroeconômicos.

O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) na zona do euro desacelerou para 0,2% no primeiro trimestre de 2022, segundo a agência europeia de estatísticas Eurostat.

No quarto trimestre de 2021, o crescimento havia sido de 0,3%.

Para a União Europeia (UE) como um todo, o PIB cresceu 0,4% no primeiro trimestre deste ano, após registrar 0,5% nos últimos três meses de 2021, segundo o Eurostat.

Considerando-se os últimos 12 meses, com três trimestres consecutivos em território positivo, o aumento do PIB na zona do euro é de 5% e, no conjunto da UE, 5,2%, em relação ao primeiro trimestre de 2021.

A inflação na zona do euro, por sua vez, atingiu um novo recorde este mês.

O índice no bloco monetário subiu para 7,5% em abril, ante 7,4% em março. O número veio em linha com as expectativas, impulsionado por um aumento persistente nos preços de energia e alimentos, mostraram dados da Eurostat.

O núcleo do índice subiu de 3,2% para 3,9%.

As bolsas asiáticas fecharam com altas, com as expectativas de suporte do governo chinês à economia. Em Hong Kong, houve avanço de 4,01% e, na China, de 2,41%.

A Bolsa de Tóquio permaneceu fechada devido a um feriado.

Fonte: ECONOMIA.IG.COM.BR