Localizações expostas, censura e prisões: a luta por liberdade de expressão no “Twitter chinês”

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Weibo foi lançado em 2009 pela Sina Corporation e hoje tem mais de 570 milhões de usuários na China| Foto: EFE/EPA/ADRIAN BRADSHAWOuça este conteúdo

Numa ditadura comunista, não deixa de ser uma ironia que a principal rede social do país tenha como logo um olho atento estilizado – uma referência involuntária ao slogan “O Grande Irmão está de olho em você”, do livro “1984”, de George Orwell?

O Weibo, que costuma ser descrito no Ocidente como o “Twitter chinês”, foi lançado em 2009 pela Sina Corporation e hoje tem mais de 570 milhões de usuários na China que encontram na plataforma um canal contraditório: ao mesmo tempo em que é um espaço que dá voz a muitos descontentes que não podem fazer manifestações nem criticar o governo na imprensa, nos meios acadêmicos e outros lugares, também costuma ser célere na derrubada de conteúdos que desagradem Pequim.

No lockdown rígido implantado em Xangai desde o final de março, usuários recorreram ao Weibo para postar críticas, fotos e vídeos que denunciavam situações absurdas, como cachorros sendo mortos por trabalhadores da prevenção contra a Covid-19 nas ruas desertas.

Com a fome provocada pela impossibilidade de sair para fazer compras e pela logística ineficiente da distribuição de alimentos realizada pelas autoridades chinesas, a hashtag irônica “comprando mantimentos em Xangai” se tornou uma das mais difundidas no Weibo em abril, mas em poucos dias ficou indisponível no sistema de busca da plataforma.

No ano passado, a tenista chinesa Peng Shuai publicou na rede social um texto em que acusava Zhang Gaoli, ex-vice-premiê do país e ex-membro da cúpula do Partido Comunista da China, de agressão sexual. O relato foi rapidamente tirado do ar.

Não se sabe a que ponto o Weibo pratica a autocensura ou retira conteúdos por ordem do regime chinês – em 2021, o órgão regulador de internet da China impôs mais de 40 penalidades ao Weibo por postagens com “informações ilegais”, ocasiões em que foi orientado a “imediatamente retificar e lidar seriamente com os responsáveis relevantes”.

Após uma das últimas advertências, em dezembro, o Weibo apontou em comunicado que “aceitava sinceramente as críticas” do órgão regulador e informou que havia estabelecido um grupo de trabalho para tratar do assunto.

No final de abril, o Weibo começou a divulgar as localizações dos usuários a partir do IP para combater “mau comportamento” na rede social, punindo atitudes como “se passar por partes envolvidas em questões de tópicos importantes” e espalhar “desinformação maliciosa”, e “para garantir a autenticidade e transparência do conteúdo divulgado”.

“O Weibo sempre esteve comprometido em manter uma atmosfera de discussão saudável e ordenada e proteger os direitos e interesses dos usuários na obtenção rápida de informações reais e eficazes”, apontou a empresa em comunicado.

Essa exposição e o clima de denuncismo corroboram o espírito de “Grande Irmão” da plataforma, até mesmo com casos de usuários presos por conteúdos postados na rede social.

Em 2013, quatro usuários do Weibo foram detidos pelas autoridades chinesas por supostamente terem espalhado “rumores” que “afetaram a imagem” de Lei Feng, soldado morto em 1962 que é considerado modelo de lealdade ao Partido Comunista da China.

No ano passado, o blogueiro Qiu Ziming, que se identificava como La Bi Xiaoqiu e tinha mais de 2,5 milhões de seguidores no Weibo, foi preso por ter chamado um conflito com tropas indianas na fronteira de “videogame tático” e questionado o número oficial de baixas chinesas em duas postagens na rede social.

As autoridades da cidade de Nanjing disseram que o blogueiro “distorceu maliciosamente a verdade” e que após ser detido confessou má conduta por “provocar brigas e causar problemas”. Antes de ser sentenciado a oito meses de prisão, Qiu foi banido do Weibo. Grande Irmão ou não, para quem é chinês e está no Weibo, definitivamente alguém está de olho em você.

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Fonte: GAZETADOPOVO.COM.BR