Como a morte de uma jovem que não queria usar o hijab está convulsionando o Irã

Como a morte de uma jovem que não queria usar o hijab está convulsionando o Irã

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Pessoas entram em confronto com a polícia durante um protesto após a morte de Mahsa Amini, em Teerã, Irã, 21 de setembro de 2022.| Foto: EFEOuça este conteúdo

Mulheres retirando e queimando hijabs (véus) no Irã: uma representação da crise social no país. E essa é apenas uma das manifestações que têm acontecido nas cidades iranianas nos últimos dias. Até agora, foram anunciadas as mortes de 31 pessoas, entre civis e policiais, nos protestos noturnos contra a “polícia da moralidade” ou “polícia de costumes”, como é chamado esse setor de segurança do país.

No último fim de semana, Mahsa Amini, de 22 anos, morreu enquanto estava sendo presa. O crime que ela cometeu, segundo as autoridades, foi o de “se vestir de forma inadequada”, por não usar hijab. De acordo com testemunhas, ela teria sido torturada e executada.

Manifestantes na capital, Teerã, e em outras cidades do país bloquearam o trânsito, incendiaram latas de lixo e veículos da polícia, atiraram pedras contra as forças de segurança e gritaram mensagens antigovernamentais em protestos nas últimas noites, segundo a agência de notícias oficial Irna.

“Não ao lenço, não ao turbante, sim à liberdade e à igualdade”, gritaram os manifestantes. O slogan ecoou em protestos de solidariedade em outras grandes cidades do país e no exterior, especialmente em Nova York e Istambul.

Essas manifestações constituem “um choque muito importante” no Irã, “é uma crise social” em uma sociedade “cada vez mais secularizada”, declarou David Rigoulet-Roze, pesquisador associado da Iris, à agência AFP.

“É todo um projeto de sociedade que é posto à prova. Há uma hesitação por parte das autoridades sobre o procedimento a seguir diante desse movimento”, explicou o pesquisador.

Pessoas entram em confronto com a polícia durante um protesto após a morte de Mahsa Amini, em Teerã, Irã, 21 de setembro de 2022.| EFE

Internet é cortada no Irã 

As autoridades respondem tirando as redes sociais do ar. Na quarta-feira (21), o Instagram e o Whats App ficaram inacessíveis, de acordo com a agência iraniana Fars, que noticia de acordo com o ponto de vista do governo. A medida teria sido tomada por causa de “ações realizadas por contrarrevolucionários, em ofensiva à segurança nacional através dessas redes sociais”, anunciou a Fars.

Instagram e WhatsApp foram os aplicativos mais usados no Irã desde o bloqueio de plataformas como YouTube, Facebook, Telegram, Twitter e TikTok nos últimos anos.  Além disso, o acesso à internet é filtrado ou restringido pelas autoridades.

Segundo anunciou o diretor do Observatório do Norte da África e Oriente Médio da Fundação Jean Jaurès, Farid Vahid, em suas redes sociais, as famílias iranianas recebem nos últimos dias as seguintes mensagens: “Se você não tiver notícias nossas mais tarde, saiba que eles cortaram a internet para que não possamos mais ser ouvidos! Então, por favor, nos ajude”.   

Quem são as mulheres que inspiram as manifestações 

Mahsa Amini, da região do Curdistão, foi presa no dia 13 de setembro em Teerã por “vestir roupas inadequadas” pela polícia de moralidade, unidade responsável pela aplicação do código de vestimenta na República Islâmica. Ativistas disseram que a jovem foi morta com tiros na cabeça, depois de sofrer tortura, uma alegação negada pelas autoridades que anunciaram uma investigação.

No Irã, as mulheres são obrigadas a cobrir o cabelo, e a polícia de costumes também as proíbe de deixar as pernas à mostra, usar calças justas, jeans furados e roupas coloridas.

A homossexualidade também é considerada crime no país. Uma semana antes do caso de Mahsa Amini, duas lésbicas foram condenadas à morte por “promoverem a homossexualidade” e também o cristianismo. Elas foram lembradas por civis nas últimas manifestações.

Zahra Sedighi Hamedani, de 31 anos, e Elham Chubdar, de 24, foram julgadas por um tribunal da cidade de Urmía, no noroeste do país, conforme informou a organização curda de defesa dos direitos humanos Hengaw.  
 
A Autoridade Judicial confirmou que elas foram condenadas por “espalhar a corrupção na Terra” – uma acusação frequentemente imposta a réus considerados como tendo infringido as leis da sharia do país. É a acusação mais grave do código penal iraniano. 

Além da moralidade: perseguição étnica, crise econômica e política 

O professor e doutor em História Andrew Traumman, da Unicuritiba, alertou para um agravante nessas histórias que inspiraram as últimas manifestações. “Tanto Mahsa quanto Zahra e Elham são curdas. Existe uma questão que vai além do moralismo, que é a questão étnica, uma perseguição a minorias étnicas no Irã”, destacou.

O povo curdo, historicamente, aspira conquistar independência política e territorial do Irã, Iraque, Síria e Turquia.

De acordo com o especialista, que é autor de livros sobre a República Islâmica do Irã publicados pelas editoras Paço Editorial e Autografia, o movimento no país nesta semana possui inúmeras causas e é consequência de anos de insatisfação dessas minorias étnicas, de mulheres e da sociedade como um todo.

A onda verde, que questionava a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, em 2009, foi, segundo ele, o pontapé inicial de uma onda de insurgências que tomam conta do país.

Nos últimos anos, o Irã tem passado por problemas econômicos também, especialmente pelo fracasso do acordo nuclear assinado com o Ocidente em 2015 – três anos depois, o então presidente americano Donald Trump voltou atrás no compromisso, alegando que “o regime iraniano é o principal país patrocinador do terrorismo”, e restabeleceu sanções. Um novo acordo está sendo negociado desde o ano passado.

A eleição de Ebrahim Raisi neste ano também desencadeou reações na população. “Conhecido por provocar torturas e desaparecimento de pessoas, ele tem desenvolvido um governo bastante retrógrado em relação a pautas de costumes”, lembrou Traumann. Entre os hábitos impostos e reforçados pelo atual presidente, está o uso de véu e até regras que restringem animais de estimação.

Os novos protestos, portanto, são o ápice do que tem acontecido há pelo menos 13 anos no Irã: a expressão da insatisfação popular. “Ocorrem manifestações e o governo reprime com toda a força, então elas são silenciadas. Precisamos ver com cautela se esses protestos de agora terão um resultado concreto ou se acabarão sendo sufocados pelo governo”, concluiu Traumann.

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