Skyler Ashley/City PulsePaul Birdsong, o novo rosto da militância negra armada nos EUA
Aos 30 e poucos anos, Paul Birdsong se tornou um dos nomes mais controversos e visíveis do ativismo negro contemporâneo nos Estados Unidos. Para apoiadores, ele representa a retomada de um legado histórico de resistência e autodefesa comunitária. Para críticos, é o símbolo de um movimento que flerta com a radicalização armada em um país já profundamente polarizado.
Entre esses dois polos, Birdsong ocupa um espaço que mistura militância social, discurso político duro e ações práticas em territórios marcados pela violência estatal e pela desigualdade racial.
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Birdsong ganhou projeção nacional após os protestos de 2020 contra a brutalidade policial, que se espalharam pelos EUA depois do assassinato de George Floyd.
Foi nesse contexto de revolta, desconfiança das instituições e mobilização popular que ele emergiu como presidente nacional de uma organização que utiliza o nome Black Panther Party for Self-Defense, inspirada diretamente no Partido dos Panteras Negras fundado nos anos 1960 por Huey P. Newton e Bobby Seale.
Skyler AshleyPaul Birdsong, o novo rosto da militância negra armada nos EUA
Apesar da simbologia carregada, Birdsong costuma deixar claro que seu grupo não é uma continuidade legal do movimento histórico, mas sim uma releitura contemporânea de seus princípios. A base do discurso é conhecida: combate ao racismo estrutural, denúncia da violência policial, crítica ao encarceramento em massa e defesa do direito à autodefesa em comunidades negras e periféricas.
Na prática, sua atuação combina duas frentes. A primeira é social e comunitária. Membros da organização participam de distribuições regulares de alimentos, roupas e itens básicos em bairros pobres, retomando a lógica dos antigos programas sociais dos Panteras Negras, como o café da manhã gratuito para crianças.
Matt Schmucker | The State NewsPaul Birdsong, o novo rosto da militância negra armada nos EUA
Birdsong argumenta que esse trabalho é ignorado pela grande mídia, que costuma focar apenas na presença armada do grupo.
A segunda frente é a mais polêmica: a presença ostensiva de membros armados em protestos e ações públicas, sempre amparada pelas leis estaduais que permitem o porte de armas. Para Birdsong, essa postura não é provocação, mas dissuasão.
Ele afirma que a simples visibilidade de cidadãos negros armados e organizados funciona como um freio a abusos policiais e ataques de grupos extremistas, além de reforçar a ideia de que as comunidades marginalizadas têm direito à própria proteção quando o Estado falha.
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O discurso de Birdsong é direto, por vezes inflamado. Ele fala em “autodefesa do povo”, critica o capitalismo americano e denuncia o que chama de racismo institucionalizado nas forças de segurança. Também busca aproximar sua organização de outras causas, como a defesa de imigrantes e alianças com trabalhadores precarizados, ampliando o alcance político para além da pauta racial.
Essa postura o colocou rapidamente no radar das autoridades e da imprensa. Especialistas em direitos civis e segurança pública alertam que a normalização de grupos armados em espaços urbanos pode aumentar tensões e riscos de confrontos.
Berl Schwartz/City PulsePaul Birdsong, o novo rosto da militância negra armada nos EUA
Já antigos integrantes dos Panteras Negras históricos se dividem: alguns veem semelhanças legítimas com a luta do passado, enquanto outros criticam o uso do nome e dos símbolos em um contexto político completamente diferente.
Paul Birdsong, no entanto, parece confortável com a controvérsia. Ele se apresenta como produto de seu tempo: um líder moldado por uma era de redes sociais, violência policial filmada em tempo real e descrença generalizada nas instituições.
Para seus seguidores, ele é uma voz que devolve dignidade e senso de poder a comunidades historicamente silenciadas. Para seus opositores, um ativista que caminha na linha tênue entre resistência e radicalização.
Seja como herdeiro simbólico dos Panteras Negras ou como figura de ruptura dentro do próprio movimento negro, Birdsong representa um fenômeno maior: a volta do debate sobre autodefesa, raça e poder em um Estados Unidos cada vez mais dividido. E, goste-se ou não de sua estratégia, ele já se tornou um personagem impossível de ignorar no cenário político e social do país.
Fonte: ULTIMOSEGUNDO.IG.COM.BR

