Sorry, we couldn't find any posts. Please try a different search.

Conexões caóticas, bota de montanha em Roma e a chegada à Armênia

Conexões caóticas, bota de montanha em Roma e a chegada à Armênia

Pedro HauckO autor no coliseu em Roma

Toda grande expedição de montanha começa muito antes do primeiro passo na trilha. Ela começa na logística — e, quase sempre, no improviso. O meu plano para cruzar o Cáucaso teve como pontapé inicial uma rota improvável: saí de Valença do Minho, no norte de Portugal, pegando um ônibus até o Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto. O bilhete era barato e logo entendi a razão: a linha parava em cada cidadezinha ao longo do caminho. O trajeto de uma hora se esticou para quase três sob chuva pesada.

Dormi em um hostel automatizado perto do terminal, enfrentei mais uma tempestade para descolar um jantar rápido e, antes do nascer do sol, já estava despachando a cargueira de 15 kg no balcão da Wizz Air. O bilhete não me levava direto ao Cáucaso, mas sim a Roma, para uma escala longa de quase vinte horas antes do embarque rumo a Yerevan, capital da Armênia.

Roma de bota semirrígida

Cheguei à capital italiana perto do meio-dia. Meu voo seguinte sairia apenas às 6h da manhã do dia seguinte. Como não desperdiço tempo de escala, deixei a bagagem em um guarda-volumes e fui direto ao centro histórico, descendo perto do Vaticano.

Pedro Hauck

Na praça de San Pedro no Vaticano.

A intenção era ver a Basílica de São Pedro por dentro, mas a fila gigantesca dobrou quarteirões e me fez abortar a ideia. Segui a pé margeando o Rio Tibre em direção ao coração da cidade antiga. Roma tem essa característica fascinante para quem estuda o relevo e a ocupação urbana: são camadas e camadas de civilização empilhadas. A cidade antiga que visitamos hoje é, em grande parte, medieval e renascentista, erguida sobre as fundações romanas clássicas ( adoro estudos da geomorfologia urbana e sou orgulhoso de ser  co-autor de artigo sobre este tema de minha cidade!)

O problema de bater perna em Roma no meio de uma viagem de montanha é a bagagem enxuta. Eu estava calçando minhas  botas semirrígidas de alta montanha — perfeitas para terreno técnico e pedregulhos no Kazbek, mas um massacre implacável para o asfalto e paralelepípedos.

A solução foi apelar para os patinetes elétricos de aplicativo. Aluguei um e segui em direção à Fontana di Trevi. O monumento é espetacular, mas o turismo de massa tira qualquer resquício de charme: a praça estava abarrotada a ponto de ser difícil até se aproximar da borda d’água. Eu até levava algumas rúpias (que sobraram de minha viagem á Índia) no bolso para jogar na fonte e pedir boa sorte para os cumes do Cáucaso, mas desisti do ritual no meio da multidão.

Toquei o patinete em direção ao Fórum Romano, contornei os Mercados de Trajano e o imponente Monumento a Vittorio Emanuele II, até dar de cara com o Coliseu. Dei a volta completa na estrutura e segui até a ampla esplanada onde ficava o Circus Maximus — hoje um parque público de terra batida que ainda preserva a silhueta das antigas corridas de bigas. Pilotar patinete no trânsito romano no início da noite é uma experiência à parte: contramão, calçadas e carros dividindo espaço sem que ninguém se estresse. Roma não tem o rigor suíço, e é justamente isso que dá dinamismo à cidade.

Fechei a passagem rápida com uma pizza perto da estação Roma Termini, resgatei a mochila no aeroporto antes do fechamento do guarda-volumes e passei a madrugada instalado em uma poltrona do saguão esperando o check-in das 3h da manhã.

Pedro HauckFórum Romano: ruínas da antiguidade no centro da cidade.

Suspeito na fronteira armênia

O voo para a Armênia foi um apagão de cansaço. Só acordei com as rodas tocando a pista do pequeno Aeroporto Internacional de Zvartnots, em Yerevan.

Brasileiros não precisam de visto de turismo para entrar na Armênia, mas a minha passagem pela cabine de imigração não foi tão trivial. A oficial pegou meu passaporte, olhou para o documento, olhou para mim, colocou a página sob a luz ultravioleta repetidas vezes e chamou uma colega de posto para uma segunda opinião. Entre a foto oficial e o meu estado atual, havia o combo clássico de quem emenda viagens longas: cabelo bem mais comprido, alguns quilos a mais e aparelho ortodôntico recém-colocado (obrigado Dr. Márcio Cândido!). Depois de alguns minutos de checagem minuciosa — talvez suspeitando de algum agente infiltrado —, o carimbo finalmente desceu no papel.

Pedro Hauck

Arquitetura brutalista em Yerevan. Resquícios da URSS.

Peguei um ônibus local até o centro por pouco mais de 1 euro e me instalei em um hostel dominado por jovens russos, fugidos da guerra na Ucrânia. Yerevan tem uma energia completamente diferente da Europa Ocidental: ampla, com arquitetura soviética marcada pelo uso do tufo vulcânico rosado (rocha vulcânica) e um custo de vida incrivelmente acessível — a volta de patinete elétrico pelas avenidas largas aqui custou uma fração dos euros deixados na Itália.

O plano para o Monte Aragats

A dor de cabeça da desidratação e o desgaste das noites mal dormidas me obrigaram a descansar algumas horas, mas a cabeça do montanhista nunca desliga da logística dos próximos dias. Afinal, minhas viagens não são passeios urbanos triviais, mas sim viagens de montanha!

O meu grande objetivo geográfico na Armênia é o Monte Aragats, um estrato vulcão extinto de quatro cumes cujo ponto culminante atinge 4.090 metros, sendo a montanha mais alta do país. O vulcão fica a cerca de 80 km ao norte de Yerevan.

A previsão meteorológica para os próximos dias indica instabilidade, abrindo uma janela de tempo limpo e perfeito exatamente no meu último dia de estadia. A estratégia, portanto, foi invertida:

Dias 1 e 2: aclimatação cultural, exploração de Yerevan e arredores históricos.
Dia 3: ataque rápido ao Aragats e partida imediata para a Geórgia.
A logística desse ataque exige precisão cirúrgica. Tentar negociar a espera com motoristas de aplicativo por 8 horas na base da montanha seria arriscado. Com a ajuda do dono do hostel, fechei um transporte particular por 40.000 drams armênios (cerca de 100 dólares). O motorista me buscará às 5h da manhã na porta do hostel e ficará me aguardando no sopé do maciço.

Serão 16 km de caminhada (ida e volta) entre pedras e desnível acentuado para bater o cume e descer. Preciso estar de volta a Yerevan pontualmente no início da noite: às 20h, embarco no trem noturno que cruza a fronteira em direção a Tbilisi, na Geórgia, onde começa o segundo capítulo desta jornada rumo ao temido Monte Kazbek.

A janela está definida e o cronômetro começou a rodar. Mas antes de encarar as encostas do vulcão mais alto da Armênia, vou aproveitar justamente esse tempo fechado para explorar Yerevan a fundo e conhecer alguns dos tesouros históricos e culturais nos seus arredores. Não perca a próxima coluna, onde conto em detalhes como foi desbravar essa capital tão singular aos pés do Cáucaso.

ESPECIAL PAÍSES DO CÁUCASO:

::Conexões caóticas, bota de montanha em Roma e a chegada à Armênia
::Da foice e martelo ao primeiro reino cristão do mundo
::A escalada do Monte Aragats
::Fronteiras tensas, o trem da Geórgia e os pés do Kazbek
::Vento branco, fendas e o cume do Kazbek
::Das vinícolas milenares ao museu intocado de Stalin
::Da desistência do Ararat ao museu soviético vivo da Transnístria

Fonte: TURISMO.IG.COM.BR

Flagrou? Manda pro Pimenta Virtual!

Se aconteceu em Pimenta Bueno ou região, basta enviar um áudio ou texto narrando os fatos junto com que
você registrou para nosso

WhatsApp (69) 98122-9699.

Pimenta Virtual apura e leva a informação à comunidade.
✉ Fotos, vídeos, denúncias e causas sociais são bem-vindos!

Ao enviar você autoriza o uso do material nos nossos canais.
Sua identidade ficará em total sigilo, protegida pela Lei de Fontes (CF/88, art. 5º, XIV).

Flagrou? Manda pro Pimenta Virtual!

Se aconteceu em Pimenta Bueno ou região, basta enviar um áudio ou texto narrando os fatos junto com que
você registrou para nosso WhatsApp (69) 98122-9699.

Pimenta Virtual apura e leva a informação à comunidade.
✉ Fotos, vídeos, denúncias e causas sociais são bem-vindos!

Ao enviar você autoriza o uso do material nos nossos canais.
Sua identidade ficará em total sigilo, protegida pela Lei de Fontes (CF/88, art. 5º, XIV).