Obra nasceu das lembranças de Juvencino e percorre desde as raízes italianas da família até a chegada a Rondônia, mostrando como era viver em Pimenta Bueno quando estradas, energia, transporte e serviços ainda eram limitados.
Parte da história de Pimenta Bueno que até hoje permanecia guardada nas lembranças de uma família agora ganhou as páginas de um livro. O pioneiro Juvencino, que chegou ao município na década de 1970, decidiu registrar as experiências vividas por sua família e as transformações que acompanhou ao longo de mais de cinco décadas.
Em entrevista concedida ao Pimenta Virtual, Juvencino relembrou episódios que ajudam a mostrar às novas gerações uma Pimenta Bueno muito diferente da cidade atual.
A história contada na obra começa antes mesmo de Rondônia. As raízes da família estão na Itália, de onde seus antepassados partiram para o Brasil. Depois de se estabelecerem no Espírito Santo, uma nova mudança aconteceria anos mais tarde, desta vez em direção ao então território de Rondônia.
A decisão foi motivada, segundo Juvencino, principalmente pelo tamanho da família e pela busca por terras onde os filhos pudessem construir o próprio futuro. A viagem começou no Espírito Santo e foi feita em um caminhão no estilo “pau de arara”, reunindo famílias, mudanças e cerca de 35 pessoas.
Foram aproximadamente cinco dias na estrada até Pimenta Bueno. Juvencino recorda que a família chegou na noite de 11 de julho de 1972. Na época, encontrar uma casa sequer era um desafio. Os primeiros dias foram passados em estruturas improvisadas com lonas, enquanto a família começava uma nova vida.
A Pimenta Bueno encontrada pelos recém-chegados tinha uma realidade completamente diferente. A energia elétrica funcionava por poucas horas durante a noite, o atendimento de saúde era limitado e várias regiões rurais ainda não contavam com estradas. Para chegar a determinadas propriedades, o rio fazia parte do caminho.
O desenvolvimento das estradas aparece com destaque nas lembranças do pioneiro. Juvencino acompanhou a abertura de caminhos pela mata e recorda a construção de uma balsa que possibilitou a passagem de máquinas para áreas onde posteriormente avançariam as estradas em direção a localidades como Primavera de Rondônia e Rolim de Moura.
Até atividades simples exigiam esforço. Depois de se estabelecer na zona rural, Juvencino conta que chegou a percorrer longas distâncias de bicicleta para ir até Pimenta Bueno. Levava frangos para vender e utilizava o dinheiro para comprar produtos necessários para a família, como leite, açúcar, temperos, sabonete e combustível para as lamparinas.
Essas experiências se transformaram na matéria-prima do livro.
O trabalho de organizar as memórias contou com a participação do professor Robson, genro de Juvencino e doutor em Educação. Durante a entrevista, ele explicou que a tarefa foi transformar em texto uma história que já estava construída na memória do pioneiro. A filha de Juvencino, Ana Cláudia, também teve participação importante na elaboração da obra, especialmente por ter acompanhado parte dessa trajetória familiar.
Mais do que uma biografia, o livro acabou reunindo diferentes períodos. A narrativa acompanha o deslocamento dos antepassados da Itália para o Brasil, a vida no Espírito Santo, a mudança para Rondônia e, posteriormente, a formação da própria família de Juvencino. Também aparecem episódios ligados ao cotidiano de Pimenta Bueno e de comunidades da região.
Entre as lembranças estão locais que hoje possuem uma paisagem completamente diferente. Segundo os relatos reunidos na entrevista, áreas atualmente ocupadas pela cidade já foram fazendas e currais, enquanto uma pista de pouso ajudava na distribuição de pessoas e mercadorias para propriedades mais distantes.
Para Robson, esse contraste é justamente um dos pontos importantes da obra. Quem nasceu nas últimas décadas dificilmente consegue imaginar uma época em que moradores precisavam caminhar quilômetros, enfrentar estradas praticamente abertas na mata ou depender de bicicleta e caronas para chegar à cidade. O livro atravessa diferentes gerações e procura preservar essas experiências antes que desapareçam junto com aqueles que as viveram.
O projeto inicialmente seria voltado principalmente para a própria família. Porém, o interesse de outras pessoas levou à preparação de uma segunda tiragem. O lançamento foi feito durante um encontro familiar. Interessados em obter informações sobre exemplares podem entrar em contato pelo e-mail disponibilizado durante a entrevista: [email protected].
Ao colocar essas lembranças no papel, Juvencino deixa para filhos, netos e para a própria comunidade um registro de um período em que Pimenta Bueno ainda dava seus primeiros passos. São histórias pessoais que, ao se cruzarem com estradas, rios, comércio, trabalho e crescimento da cidade, também ajudam a contar parte da história do município.
Pimenta Virtual – Da Redação

