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Governo bate recorde de arrecadação com R$ 239 bilhões, enquanto mais de 80% das famílias brasileiras estão endividadas

Receita Federal registra maior arrecadação da história para o mês de setembro, com crescimento acima da inflação. Em contrapartida, pesquisa aponta que 81,7% das famílias possuem dívidas e quase 30% enfrentam contas em atraso.

O governo federal arrecadou R$ 239,4 bilhões em impostos, contribuições e outras receitas federais em setembro de 2026, estabelecendo um novo recorde para o mês. Enquanto os cofres públicos registram crescimento na arrecadação, milhões de famílias brasileiras enfrentam dificuldades para equilibrar o orçamento doméstico, com elevado comprometimento da renda e contas em atraso.

Conforme as informações levantadas pelo Pimenta Virtual, os dados divulgados nesta quinta-feira, 22 de outubro, pela Receita Federal mostram que a arrecadação cresceu 5,62% em relação a setembro de 2025, já descontada a inflação. É o maior resultado para o mês desde o início da série histórica do órgão.

No acumulado de janeiro a setembro deste ano, a arrecadação federal chegou a R$ 2,35 trilhões, crescimento real de 6,97% em comparação com o mesmo período do ano passado.

O desempenho foi impulsionado por diferentes fatores, entre eles o crescimento das receitas previdenciárias, o recolhimento de impostos sobre os lucros das empresas e a arrecadação de tributos relacionados ao consumo e às operações financeiras.

Somente as receitas previdenciárias somaram R$ 64,58 bilhões em setembro, refletindo, entre outros fatores, o aumento da massa salarial e mudanças na tributação da folha de pagamento.

Enquanto a arrecadação cresce, famílias enfrentam dificuldades financeiras

O contraste aparece quando os números do governo são comparados com a realidade financeira da população brasileira.

Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 81,7% das famílias brasileiras estavam endividadas em setembro de 2026.

Embora o índice tenha apresentado uma pequena redução em relação aos 82% registrados em agosto, permanece em patamar elevado.

O levantamento também revelou que 29,6% das famílias tinham contas em atraso, enquanto 12,5% declararam não ter condições financeiras de quitar os compromissos vencidos.

Outro dado chama a atenção: em média, as famílias comprometiam 29,6% de sua renda com o pagamento de dívidas, percentual superior aos 29,3% registrados no mês anterior.

Isso significa que, para uma família com renda mensal de R$ 3 mil e comprometimento semelhante à média nacional, aproximadamente R$ 888 seriam destinados ao pagamento de dívidas, restando R$ 2.112 para as demais despesas.

É importante destacar que estar endividado não significa necessariamente estar inadimplente. Muitas famílias possuem financiamentos, empréstimos ou compras parceladas e mantêm seus pagamentos em dia. Entretanto, o elevado comprometimento da renda pode reduzir a margem financeira disponível para enfrentar imprevistos.

Impostos, consumo e orçamento doméstico

A arrecadação federal está diretamente relacionada à atividade econômica. Quando empresas vendem mais, a massa salarial cresce ou determinados setores apresentam maiores lucros, o recolhimento de tributos também pode aumentar.

Parte dos impostos é paga diretamente por pessoas físicas e empresas, enquanto outros estão incorporados aos preços de produtos e serviços adquiridos diariamente pela população.

Por isso, a arrecadação recorde não significa, necessariamente, que todos os brasileiros estejam vivendo uma situação financeira mais confortável.

O crescimento das receitas públicas pode ocorrer simultaneamente ao aumento das dificuldades enfrentadas por determinados grupos de consumidores, especialmente aqueles que dependem de crédito para organizar suas despesas.

Por outro lado, os dados não permitem afirmar que o aumento da arrecadação federal tenha provocado diretamente o endividamento das famílias. São indicadores diferentes, influenciados por fatores como renda, juros, consumo, emprego, disponibilidade de crédito e política tributária.

Brasil arrecada mais, mas o dinheiro continua apertado para milhões

Outro indicador que merece atenção é o tempo médio de atraso no pagamento das dívidas, que chegou a 65,3 dias em setembro, segundo a pesquisa da CNC.

Apesar da pequena redução no percentual de famílias inadimplentes, o aumento do tempo médio de atraso demonstra que parte dos consumidores continua encontrando dificuldades para regularizar seus compromissos financeiros.

A situação também merece atenção do comércio, já que o comprometimento do orçamento doméstico pode limitar a capacidade de consumo, especialmente em setores que dependem de vendas parceladas.

Para os comerciantes, o elevado endividamento representa um desafio adicional, pois consumidores com grande parte da renda comprometida podem ter menos espaço no orçamento para novas compras.

Recorde nos cofres públicos levanta debate sobre a realidade das famílias

Os números mostram dois cenários distintos da economia brasileira. De um lado, o governo federal registra arrecadação recorde, com receitas crescendo acima da inflação. Do outro, mais de oito em cada dez famílias possuem algum tipo de dívida, e quase três em cada dez enfrentam pagamentos em atraso.

A comparação não significa que a arrecadação tenha crescido exclusivamente por causa de novos impostos ou de maior cobrança sobre as famílias. Parte importante do resultado está associada ao desempenho das empresas, do mercado de trabalho e de setores específicos da economia.

Ainda assim, os indicadores reforçam uma questão importante para o debate econômico: o crescimento da arrecadação pública precisa ser analisado também à luz das condições de vida da população, da qualidade dos serviços públicos e do poder de compra das famílias.

O desafio vai além de aumentar a receita do governo. Também envolve criar condições para que os brasileiros tenham renda suficiente para pagar suas contas, consumir e manter uma situação financeira sustentável.

Pimenta Virtual – Da Redação

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