Orgânicos produzidos no Brasil não conseguem suprir demanda interna

Orgânicos produzidos no Brasil não conseguem suprir demanda interna

Rovena Rosa/Agência Brasil Orgânicos produzidos no Brasil não conseguem suprir demanda interna

O Brasil se destaca como um dos principais mercados agrícolas globaisincluindo produtos orgânicos. Apesar disso, a oferta ainda se mostra insuficiente para a demanda, que só cresce. De acordo com uma pesquisa publicada nesta sexta (24) na revista científica “Desenvolvimento e Meio Ambiente” aponta, além disso, que há falhas no levantamento de dados referente ao cultivo de produtos orgânicos no país.

O trabalho, feito por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), traçou um panorama sobre a produção e a demanda de orgânicos no Brasil, a partir de dados do Censo Agropecuário de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)do Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos (CNPO), realizado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa)e dados de consumo de pesquisas da Associação de Promoção dos Orgânicos (Organis) e do  Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Produtos orgânicos são cultivados sem agrotóxicos ou produtos químicos sintéticos . A produção envolve o uso de adubos naturais e, se necessário, defensivos biológicos para controlar pragas e doenças.

Entre 2003 e 2017, as vendas de produtos orgânicos quadruplicaram, experimentando um crescimento adicional de 30% em 2020, alcançando um montante de aproximadamente R$ 5,8 bilhões, de acordo com uma pesquisa. O mercado brasileiro, entretanto, depende significativamente de importações, indicando que a produção local de orgânicos não atende totalmente à demanda.

Os dados do  Ministério da Agricultura apontam a existência de 953 certificações de orgânicos para produtos importados, originários de 23 países. Esses produtos incluem desde espécies características de outras regiões, como amaranto, quinoa, damasco e azeite de oliva, até alimentos também produzidos em território nacional, como amendoim, arroz, soja, tomate, milho e feijão.

“Existe uma tendência de expansão da oferta, já que as áreas cultivadas podem ser maiores, mas há um descompasso em relação ao consumo”, explica Lourenço. Uma das hipóteses é de que uma parte dos orgânicos produzidos no país seja enviada para Europa e Estados Unidos, enquanto uma boa quantidade é destinada para a agroindústria”, defende a pesquisadora Andréia Lourenço, da UFRGS, co-autora do estudo.

O número de cadastros de produtores de orgânicos realizados aumentou 75% entre 2017 e 2022. Estes números, no entanto, não devem ser comparados com os  dados do IBGE, já que as metodologias são diferentes. “As informações do Mapa consideram o produtor orgânico, mas não o estabelecimento, enquanto o IBGE trabalha com estabelecimentos”, pontua.

A pesquisadora destaca que as bases de dados utilizadas pelo estudo são limitadas. “Precisamos de ferramentas mais aprimoradas para ter um panorama mais preciso da cadeia produtiva de orgânicos do país”, avalia.

O aprimoramento da coleta de informações tem o potencial de impulsionar a criação e implementação de políticas públicas voltadas para os produtores. Além disso, pode contribuir para um mapeamento mais preciso da demanda por esse tipo de produto, possibilitando uma expansão mais eficiente da oferta para o mercado consumidor interno.

As propriedades com agricultura orgânica representam 1,28% do total no Brasil, sendo que aproximadamente 30% delas estão concentradas na região Sudeste. Estimativas indicam que esse tipo de cultivo abrange 0,6% das áreas agrícolas do país, com a predominância da produção vegetal em 36.689 estabelecimentos. Os outros 17.612 estabelecimentos dedicam-se exclusivamente à produção animal, enquanto uma parcela menor de 10.389 estabelecimentos combina produção animal e vegetal orgânicas.

Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Organis, 360 em cada mil brasileiros afirmam ser consumidores de produtos orgânicos. Para 13% desses consumidores, a presença de um selo de certificação é um fator significativo, influenciando sua preferência por compras em supermercados. A pesquisa foi divulgada em junho deste ano.

O estudo revela um aumento de 16% no consumo de alimentos orgânicos entre 2021 e 2023. Além disso, constatou-se que 43% dos consumidores estão dispostos a pagar até 20% a mais por produtos sem agroquímicos.

Conforme a pesquisa, os  alimentos orgânicos mais consumidos no país são banana, batata e alface. O estudo indica a importância de diversificar a oferta de produtos, abrangendo categorias como carnes, laticínios, vinhos, óleos, farinhas, grãos, açúcar, entre outros, destacando também a necessidade de intensificar as estratégias de divulgação.

“Há uma clara preocupação das pessoas com a qualidade dos alimentos consumidos e uma maior rejeição ao uso de insumos químicos no cultivo. A demanda crescente pelos produtos orgânicos demonstra isso”, defende Pedro Luiz Cortes, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente da USP (IEE-USP).

“Apesar da demanda crescente, a produção de orgânicos, e especialmente a sua certificação, exige uma série de procedimentos que demandam tempo. Atender a essa demanda crescente não é algo imediato, mas certamente essa demanda será melhor atendida ao longo dos próximos anos”, complementa.

Fonte: ECONOMIA.IG.COM.BR