Divulgação26ª Conferência Internacional sobre a AIDS – Organizada pela International AIDS Society (IAS)
Durante décadas, a resposta ao HIV tinha um objetivo muito claro, que era salvar vidas e a evolução da terapia antirretroviral transformou um diagnóstico que antes significava uma sentença de morte em uma condição crônica, permitindo que milhões de pessoas reconstruíssem os próprios projetos de vida.
Agora, a ciência inaugura uma fase que traz um novo desafio, que é garantir que essas pessoas envelheçam bem. Foi exatamente essa mudança de paradigma que motivou a publicação da Comissão da The Lancet HIV sobre Envelhecimento e HIV, ocorrida ontem, 28 de julho, durante a 26ª Conferência Internacional sobre a AIDS (AIDS 2026), organizada pela International AIDS Society (IAS). Trata-se da maior conferência mundial sobre o tema, que acontece pela primeira vez na América Latina. O evento está acontecendo até sexta-feira, 31 de julho, na cidade do Rio de Janeiro, reunindo os principais especialistas, pesquisadores, autoridades e ativistas de todo o mundo.
O documento, formulado por estudiosos de diversos países, aponta que há uma profunda transformação em relação ao assunto, pois se as tendências atuais forem mantidas, até 2040 cerca de 20,2 milhões de pessoas vivendo com HIV terão mais de 50 anos, representando 51% de toda a população mundial que convive com o vírus. Outro dado chama atenção: 96% dessas pessoas viverão em países de baixa e média renda, justamente onde os sistemas de saúde enfrentam maiores limitações.
Para se ter uma ideia, a América Latina é o único lugar do mundo onde os números ainda sobem, na contramão mundial, impulsionados por desigualdades no acesso à prevenção, cortes de verbas e diagnóstico tardio. Dados do UNAIDS, Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS, apontam que a região teve um aumento de 13% nas novas infecções desde 2010.
A mensagem da Comissão é de que controlar o vírus continua sendo fundamental, mas já não é suficiente, pois agora, o novo objetivo passa a ser preservar a utonomia, capacidade funcional, saúde mental e qualidade de vida ao longo do envelhecimento e que essa mudança exige uma revisão profunda da forma como o cuidado é organizado.
DivulgaçãoDra. Brenda Crabtree Ramírez, médica infectologista mexicana, coordenadora da Clínica de HIV do Departamento de Infectologia do Instituto Nacional de Ciências Médicas e Nutrição Salvador Zubirán, na Cidade do México
A infectologista mexicana Brenda Crabtree Ramírez, uma das autoras da Comissão e coordenadora da Clínica de HIV do Instituto Nacional de Ciências Médicas e Nutrição Salvador Zubirán, na Cidade do México, faz questão de lembrar que a longevidade não deve ser encarada como um problema: “Em primeiro lugar, o fato de as pessoas com HIV estarem vivendo mais não deve ser visto como uma preocupação. Pelo contrário, é um privilégio podermos falar hoje sobre pessoas que envelhecem com HIV. Essa longevidade não representa um problema, mas uma consequência do sucesso do tratamento”, explica.
Segundo ela, justamente por terem vivido décadas em que os medicamentos eram menos eficazes e apresentavam mais efeitos adversos, muitos pacientes chegam ao envelhecimento acumulando outras doenças crônicas que exigem tratamentos complexos: “O acompanhamento não pode mais se restringir à infectologia e ao controle do vírus. É necessário olhar também para o risco e a prevenção cardiovascular, a prática de atividade física, a saúde neurocognitiva e outros aspectos relacionados ao envelhecimento”, alerta a infectologista.
Isso significa que a pessoa que vive com HIV pode precisar de um acompanhamento que envolva cardiologistas, geriatras, neurologistas, psicólogos, fisioterapeutas e profissionais da atenção primária, além do infectologista e é justamente essa integração que ainda representa um dos maiores desafios.
DivulgaçãoRoberta Schiavon Nogueira, coordenadora clínica da Casa da Pesquisa do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de São Paulo (CRT-SP)
A infectologista Roberta Schiavon Nogueira, coordenadora clínica da Casa da Pesquisa do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de São Paulo (CRT-SP), lembra que o avanço científico permitiu uma verdadeira revolução no tratamento: “Hoje, temos medicações antirretrovirais extremamente amigáveis. São drogas mais seguras, com menos eventos adversos, melhor perfil lipídico e maior eficácia. Com isso, conseguimos fazer o controle virológico de forma bastante significativa.” Mas ela faz um alerta importante: “Muitas vezes, estamos esquecendo da prevenção. Precisamos trabalhar com menos medo, menos preconceito e carregar menos estigma. É preciso levar essa informação, usando uma linguagem acessível para que as pessoas entendam a mensagem e se sintam pertencentes.”
A fala da médica reforça um ponto destacado pela Comissão, que é a de que pessoas acima dos 50 anos continuam sexualmente ativas, mas frequentemente ficam fora das campanhas de prevenção e testagem, aumentando o risco de diagnósticos tardios. Quem envelhece com HIV enfrenta o duplo estigma, pois além do preconceito ainda associado ao vírus, soma-se o etarismo, discriminação relacionada ao envelhecimento.
Brenda Crabtree, confirma que esse continua sendo um dos grandes obstáculos na América Latina: “O estigma relacionado ao HIV é uma das causas do diagnóstico tardio. Muitas pessoas não conhecem seu diagnóstico porque têm medo da discriminação. Ao mesmo tempo, quem envelhece também enfrenta o preconceito relacionado à idade. Muitas pessoas convivem simultaneamente com esses dois estigmas.”
Na avaliação da Dra. Roberta, esse entendimento precisa acontecer sem perder de vista um grande desafio: “Quando discutimos prevenção, precisamos pensar em uma prevenção compartilhada. A responsabilidade é de todos. É preciso oferecer testagem, tratar todo mundo e ampliar o acesso às diferentes estratégias preventivas.” Ela acrescenta que o futuro da resposta ao HIV dependerá menos da descoberta de novos medicamentos e mais da capacidade de reduzir desigualdades:“Pensando exclusivamente na ciência, temos um cenário bastante otimista. O tratamento funciona, a prevenção funciona. Mas, se não enfrentarmos a desigualdade de acesso, a desinformação, o estigma e a fadiga da prevenção, não conseguiremos cortar a cascata de transmissão.”
Para a infectologista brasileira, o envelhecimento das pessoas vivendo com HIV exige um novo modelo de assistência. “Hoje essas pessoas têm uma sobrevida muito próxima da população sem HIV. Isso aumenta a necessidade de cuidado. Viver com HIV traz maior carga de doenças cardiovasculares e metabólicas, e prevenir essas comorbidades é essencial para garantir qualidade de vida. Precisamos pensar em serviços integrados que olhem para essa pessoa de maneira diferente, promovendo inclusão social, participação no trabalho e preservação das habilidades funcionais.”
A Comissão da The Lancet HIV deixa um alerta: O sucesso do tratamento mudou a história de quem vive com HIV e, depois de quatro décadas de avanços científicos, uma das maiores conquistas contra o vírus foi permitir que as pessoas envelheçam. O próximo passo é assegurar que isso ocorra com políticas públicas, informação, igualdade de acesso e sem estigmas.
Fonte: SAUDE.IG.COM.BR

