Pedro HauckVulcão Ampato no Peru
Toda grande jornada na alta montanha cobra um pedágio físico e mental. Ontem, ao apontarmos nossos passos para as encostas do Vulcão Ampato (6.288m), o cansaço acumulado de semanas quebrando barreiras de altitude pesava em cada articulação do corpo. Mas a mente do grupo já estava blindada. O Ampato foi a sexta e última montanha da nossa intensa jornada pelo sul do Peru, coroando o projeto com uma estatística espetacular: seis cumes ascendidos, sendo quatro deles acima da mística marca dos 6 mil metros de altitude.
A logística dessa montanha nos deu um refresco inicial. Nosso veículo de apoio conseguiu avançar pelas trilhas de terra até estabelecer o acampamento base diretamente na cota dos 5.250m de altitude. Partir de uma estrutura bem montada, sabendo que tínhamos um desnível exato de mil metros pela frente, trouxe um conforto psicológico importante para o ataque. Mas o Ampato não entrega o seu topo de graça.
Ampato, mais que um vulcão, um cume sagrado
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O Ampato não é apenas um gigante geológico; ele ocupa um lugar central na espiritualidade andina como um dos santuários de altitude mais importantes do Império Inca. A montanha foi palco de rituais de Capacocha, oferendas cerimoniais que incluíam sacrifícios humanos para apaziguar as divindades. Foi nesse contexto que, em 1995, o arqueólogo Johan Reinhard e sua equipe realizaram uma descoberta que assombrou o mundo: a múmia Juanita (conhecida como a Donzela do Gelo), uma jovem preservada de forma excepcional pelo frio glacial por mais de 500 anos. É interessante notar que as ruínas arqueológicas e o sítio onde Juanita foi encontrada situam-se na face oeste da montanha, uma vertente oposta à que utilizamos em nossa ascensão, evidenciando a complexidade do terreno e a vastidão desse território sagrado.
Cinzas, Gelo Vítreo e Cumes Esfarelentos
O início da ascensão nos colocou em contato direto com a dinâmica ativa da região. Caminhamos sobre as cinzas vulcânicas arenosas e finas sopradas constantemente pelo vizinho Sabancaya, adentrando em seguida um vale pedregoso que testou nossa paciência. O trecho situado entre os 5.750m e os 6.000m foi o miolo mais duro da subida: um terreno péssimo, extremamente solto, composto por acarreos instáveis e pedras escorregadias que exigiam esforço dobrado a cada passo.
Pedro HauckAmanhecer no Vulcão Ampato
A rocha solta finalmente deu trégua onde a linha de gelo começou. Ali, calçamos nossos crampons. Encontramos um gelo vítreo de má qualidade, entremeado por formações de penitentes que, por sorte, ainda não estavam grandes o suficiente para bloquear a nossa progressão.
Ao atingirmos o teto do maciço, cruzamos o que outrora fora a antiga cratera do vulcão. O Ampato possui uma estrutura geomorfológica complexa, com duas crateras antigas e paredes irregulares que desenham o horizonte. Identificamos a crista mais alta, uma imponente torre de ignimbrito (rocha piroclástica compactada por erupções antigas), e iniciamos a aproximação final por uma vertente de 35 graus. Felizmente, o acarreo daquela encosta estava congelado, permitindo que as pontas dos crampons mordessem a areia dura com firmeza. Um terreno instável, mas perfeitamente factível.
Ao alcançarmos a crista alta, nos deparamos com a realidade nua e crua da geologia vulcânica atual. O ponto culminante absoluto do Ampato ficava a escassos metros de nós, erguendo-se em um bloco de ignimbrito totalmente esfarelento e podre devido ao forte derretimento e à falta de cobertura de neve da temporada. Escalar aquela estrutura seria impossível e perigoso; a rocha desmanchava nas mãos. Em montanha, o cume verdadeiro é onde a segurança dita o limite. Paramos ali, na crista estável a pouquíssimos metros do topo geométrico, com a certeza absoluta do dever cumprido. O Ampato estava conquistado.
O Balanço de uma Temporada Histórica
Olhar o horizonte andino lá de cima e passar o filme de tudo o que vivemos nas últimas semanas traz uma sensação de realização indescritível. Deixamos o solo peruano com uma coleção invejável de montanhas na bagagem:
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Pichu Pichu – Simbral (5.360 m) – O início de tudo.
Misti (5.822m) – O guardião poeirento de Arequipa.
Chachani (6.057m) – A quebra da barreira dos 6 mil metros sob a luz da lua cheia.
Hualca Hualca (6.025m) – O labirinto de rocha e os gêiseres do Colca.
Coropuna (6.425m) – O gigante glacial do sul e nossa homenagem ao Marcelo Delvaux.
Ampato (6.288m) – O santuário de altitude e o ponto final de um projeto perfeito.
Limpamos os equipamentos pela última vez nesta temporada, celebramos a segurança e o sucesso de 100% do grupo em objetivos duríssimos e nos preparamos para o retorno. A Expedição Vulcões de Arequipa será lembrada como uma das mais completas, intensas e bem-sucedidas jornadas de alta altitude que já tive o privilégio de guiar nos Andes. Até a próxima montanha!
Fonte: TURISMO.IG.COM.BR

