Pandemia: Qual a relação entre Dr. Fauci e as pesquisas de ganho de função

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O infectologista Anthony Fauci, principal assessor da Casa Branca sobre a pandemiaO infectologista Anthony Fauci, principal assessor da Casa Branca sobre a pandemia| Foto: Wikimedia Commons / Casa BrancaOuça este conteúdo

O diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) dos EUA e consultor da Casa Branca para a pandemia, Anthony Fauci, está sofrendo pressões por parte de senadores republicanos para que renuncie de seu posto.

Essa pressão surgiu desde que a hipótese de que o novo coronavírus tenha escapado de um laboratório ganhou mais credibilidade. Parte dessa teoria está relacionada com pesquisas de ganho de função que o Dr. Fauci já defendeu no passado. Com a revelação dos e-mails que Fauci trocou durante a pandemia, suspeitas ainda não confirmadas de que ele talvez soubesse “algo mais” do que revelou publicamente sobre a nova doença começaram a surgir.

A hipótese da fuga de laboratório

As pistas de que a Covid-19 poderia ser uma doença fabricada em laboratório foram compiladas pelo repórter especialista em ciência, Nicholas Wade, no dia 2 de maio deste ano, o artigo foi traduzido na integra pelo geneticista Eli Vieira para a Gazeta do Povo e vale muito a leitura.

Resumindo-o de uma maneira muito sucinta: desde que as técnicas de manipular geneticamente os vírus surgiram, os cientistas têm defendido que poderiam antecipar uma possível pandemia explorando com que facilidade um determinado vírus que afeta animais poderia saltar para humanos.

Isso justificaria os experimentos que visam melhorar a capacidade de vírus perigosos de animais para infectar pessoas, essa técnica é conhecida como “ganho de função”.

Os virologistas começaram a estudar coronavírus de morcegos com afinco após a descoberta de que eram a fonte das epidemias de Síndrome respiratória aguda grave (SARS1) e Síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS).

“Em especial, os pesquisadores queriam entender que mudanças precisavam ocorrer nas proteínas de espícula de um vírus de morcego para que ele possa infectar humanos. Pesquisadores do Instituto de Virologia de Wuhan (IVW), chefiado pela especialista de ponta em vírus de morcegos dra. Shi Zhang-li, a ‘Mulher Morcego’, organizaram expedições frequentes a cavernas infestadas de morcegos em Yunnan, no sul da China, e coletaram cerca de cem coronavírus diferentes de morcegos”, diz o artigo.

As investigações preliminares feitas pela OMS não mostraram, entretanto, que pesquisas de ganho de função estavam sendo realizadas em coronavírus de morcegos no IVW. Embora investigações adicionais tenham sido requisitadas pelo governo americano.

Fauci confrontado no Senado

Informações como essa foram utilizadas em audiência no Senado americano, no dia 11 de maio deste ano, pelo senador republicano Rand Paul (Kentucky), também um médico, que confrontou Dr. Fauci sobre suas opiniões a respeito de pesquisas de “ganho de função” de vírus e de um suposto financiamento dessas pesquisas por parte de Fauci.

Paul questionou se as doações do Instituto Nacional de Saúde, no valor de US$ 600 mil e que teriam chegado ao IVW por meio da EcoHealth Alliance, entre 2014 e 2019, foram utilizados para pesquisas de ganho de função.

Dr. Fauci negou peremptoriamente: “Senador Paul, com todo o respeito, você está total e completamente incorreto. [O] NIH [Instituto Nacional de Saúde dos EUA], agora e nunca, não financiou pesquisas de ganho de função no Instituto de Virologia de Wuhan.”

Tanto o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas como o próprio Dr. Fauci negam ter conhecimento de que pesquisas de ganho de função estavam sendo realizadas em Wuhan.

“Não tenho nenhuma ciência de que os chineses podem ter feito [as pesquisas] e sou totalmente a favor de qualquer investigação posterior ao que aconteceu na China”, disse Fauci. “No entanto, vou repetir, o NIH… categoricamente não financiou a pesquisa de ganho de função a ser conduzida no Instituto de Virologia de Wuhan”, concluiu Fauci durante os questionamentos do Senador Paul.

E-mails de Fauci aumentam suspeitas

Revelações recentes de e-mails mostram que Dr. Fauci foi felicitado por Peter Daszak, líder da EcoHealthNYC e um defensor da pesquisa sobre ganho de função.

Daszak enviou um e-mail a Dr. Fauci em que ele agradece ao infectologista por emprestar sua credibilidade ao se pronunciar contra a teoria do vazamento de laboratório.

“Obrigado […] por defender e afirmar publicamente que a evidência científica suporta a origem natural da Covid-19, saltando de um morcego para um humano”, afirmava o e-mail de 18 abril do ano passado.

Esse e-mail alimentou a teoria de que Daszak e Fauci estariam ocultando informações sobre um possível vazamento. Essa hipótese, porém, depende mais de como cada pessoa avalia as opiniões dos dois personagens.

Daszak, contudo, já falava incansavelmente contra a teoria do vazamento de laboratório antes que a OMS o designasse para a equipe que investigou as origens do vírus.

Fauci defendeu-se dessas acusações durante uma entrevista na CNN americana: “O único problema [dos e-mails] é que eles estão realmente maduros para serem tirados do contexto, onde alguém pode cortar uma frase em um e-mail sem mostrar os outros e-mails e dizer, ‘com base em um e-mail do Dr. Fauci, ele disse tal e tal’, onde você realmente não tem o contexto completo”, disse ele.

Fauci defendeu pesquisas de ganho de função no passado

Fauci pode realmente não saber de quaisquer pesquisas de ganho de função em Wuhan, porém já defendeu esse tipo de pesquisas no passado. Um jornal australiano, The Weekend Australian, desenterrou um artigo que Fauci escreveu para American Society of Microbiology em outubro de 2012, no qual ele defendia a pesquisa de ganho de função. Fauci chamou esses experimentos de “trabalho importante” em seu texto de 2012:

“Em uma mudança improvável, mas concebível de eventos, e se esse cientista for infectado com o vírus, o que leva a um surto e, por fim, desencadeia uma pandemia? […] Os cientistas que trabalham neste campo podem dizer – como de fato eu disse – que os benefícios de tais experimentos e o conhecimento resultante superam os riscos. É mais provável que uma pandemia ocorra na natureza, e a necessidade de se manter à frente dessa ameaça é o principal motivo para a realização de um experimento que pode parecer arriscado”, dizia o artigo.

Além disso, em 19 de dezembro de 2017, o NIH anunciou que retomaria o financiamento de experimentos de ganho de função envolvendo influenza, coronavírus da MERS e coronavírus da SARS1. Proibição que estava em vigor desde outubro de 2014, durante o governo Obama.

Essa relação ainda não totalmente explicada de Dr. Fauci com pesquisas de ganho de função, além de outras opiniões um tanto erráticas durante a pandemia, explicam em parte a retórica contundente adotada por alguns senadores contra o renomado conselheiro da Casa Branca.

Marco Rubio, da Flórida, por exemplo, afirmou: “Por 16 meses, vimos o Dr. Fauci reter informações, rejeitar explicações plausíveis sobre a origem da Covid e mentir abertamente ao Congresso”, disse Rubio à Fox News. “Ele deveria ser um funcionário de saúde pública que se baseia em fatos, não um erudito que distorce a verdade para se conformar com seu julgamento pessoal.”

Apesar de sua defesa de pesquisas de ganho de função, Fauci argumentou em 2012 “que existem preocupações genuínas e legítimas sobre este tipo de pesquisa, tanto doméstica quanto globalmente”.

Além disso ressaltou que os valores repassados a IVW são relativamente pequenos: “O laboratório de Wuhan é um laboratório muito grande, no valor de centenas de milhões, senão bilhões de dólares – o subsídio de que estamos falando foi de US$ 600.000 em cinco anos”, afirmou recentemente à NewsNation.

Contudo, se os e-mails e declarações públicas do Dr. Fauci não permitem concluir que a Covid-19 vazou de um laboratório de Wuhan, decorrente de pesquisas de “ganho de função”, e de que Fauci sabia disso, também não excluem a possibilidade de que uma investigação mais detalhada possa ser efetuada.

Além disso, as suspeitas levantadas sobre uma fuga de laboratório, podem trazer novas preocupações sobre experimentos de ganho de função. Uma reavaliação da abordagem destas experiências, assim como da segurança de laboratórios será certamente bem-vinda.

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