Repressão e fim da liberdade: 25 anos de Hong Kong sob domínio chinês

Repressão e fim da liberdade: 25 anos de Hong Kong sob domínio chinês

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As bandeiras da República Popular da China e da RAE de Hong Kong são exibidas em uma rua em Hong Kong, China, 20 de junho de 2022.| Foto: EFE/EPA/JEROME FAVREOuça este conteúdo

As comemorações dos 25 anos sob domínio chinês dão pistas do quanto Hong Kong sofre repressões e restrições de liberdade. Membros da oposição foram monitorados pela polícia e nove pessoas foram presas na última semana, para garantir que o aniversário seja celebrado à chinesa.

O território foi cercado e a maior parte dos jornalistas foram impedidos de acompanhar os eventos, mostrando que a liberdade passa longe da ilha desde que ela foi devolvida aos chineses. Desde 1º de julho de 1997, o território deixou de ser uma colônia britânica e se tornou parte da China através do modelo “um país, dois sistemas”.

O ditador do país, Xi Jinping, viajou até Hong Kong, com uma força-tarefa para garantir a segurança dele, de sua esposa, Peng Liyuan, e do ministro das relações internacionais, Wang Yi.

Além deles, outras autoridades chinesas que fizeram a viagem passaram por dias de quarentena e se submetem diariamente a exames de detecção da Covid-19. Tudo para garantir que nem o coronavírus e nem pensamentos contrários à ditadura chinesa estariam presentes.

Censura à oposição e à imprensa 

A agência de notícias francesa AFP publicou que a Liga dos sociais-democratas, um dos últimos partidos de oposição, sofreu censura nas últimas semanas que antecedem as festas de aniversário.

O presidente do grupo, Chan Po-ying, declarou à agência que foi monitorado nos últimos dias e que os membros da oposição tiveram suas casas revistadas pela polícia.

O principal instituto de pesquisas de Hong Kong também foi impedido de publicar uma enquete sobre a desaprovação da ditadura chinesa, devido a “sugestões dos serviços governamentais”.

Os jornalistas que tiveram as credenciais recusadas pelas autoridades chinesas receberam a seguinte resposta: “a decisão é um equilíbrio, na medida do possível, entre as necessidades do trabalho da imprensa e as exigências de segurança”.

Trabalhadores locais, que tinham autorização para exercer a atividade presencialmente, foram informados que precisariam trabalhar em casa na quinta-feira (30), sem nenhuma declaração do motivo, porque a chegada de Xi Jinping à ilha era secreta até então.

Pequenas manifestações em meio à repressão 

Diante de tamanha repressão aos pensamentos contrários à ditadura chinesa, a oposição encontra poucas formas de se manifestar em Hong Kong. Os ativistas anti-Pequim se encontram em cafés, restaurantes e outros estabelecimentos afiliados ao grupo pró-democracia, em um espaço conhecido como “círculo amarelo”.

“Como é impossível fazer ouvirem nossa voz nas ruas ou nas urnas, a única opção que nos resta é manter nosso comércio pertencente ao círculo amarelo”, disse o ativista Ventus Lau ao jornal Le Figaro, em 2021, pouco antes de ser preso.

Uma pequena parcela da população ousa consumir conteúdo que remete ao período pré-devolução à China – enquanto ainda não são censurados -, através da cultura da “época de ouro” honconguesa, que aconteceu entre os anos 1980 e 1990.

A banda Mirror faz letras de músicas com críticas a Pequim, em cantonês (língua mais usada no dia a dia do que o mandarim e que era oficial até a devolução à China). As canções fazem sucesso na cidade portuária nos últimos meses. Jovens cineastas também estão buscando temáticas regionais e diálogos em cantonês, deixando de lado o estilo chinês que era o mais presente nas produções dos anos anteriores.

Na literatura, estão em evidência escritores como Bei Dao e Margaret Ng, que foram presos e condenados por terem participado das manifestações de 2019, contra o projeto de lei que previa a extradição de pessoas de Hong Kong à China Continental, tirando a autonomia da região e submetendo os presos a um regime mais violento.

Repressão e violência 

Sem muitas formas de se manifestar, honcongueses que se opõem ao domínio chinês não veem outra saída além da violência.

Em julho do ano passado, um homem de 50 anos esfaqueou um policial pouco antes de cometer suicídio com a mesma faca. No mesmo ano, a polícia prendeu 14 jovens, entre eles seis estudantes de 15 a 18 anos, que pretendiam estourar bombas nos tribunais da cidade.

“A vala cavada entre o governo e a população de Hong Kong vai levar a um sentimento de alienação e de angústia que poderia se traduzir em uma explosão de violência”, explica John Burns, do Departamento de Política da Universidade de Hong Kong, em declaração à BBC.

John Lee será novo governador 

Além das festividades, Xi Jinping está na ilha para acompanhar a posse do novo governador de Hong Kong, John Lee, que foi candidato único em maio e deverá estreitar os laços com a ditadura chinesa.

“O governo de John Lee tende a ser pró-Pequim e, por isso, é preciso observar os movimentos da China continental, em Hong Kong, nos próximos anos”, aponta em comunicado o movimento brasileiro Democracia Sem Fronteiras (DSF). “Não podemos descartar que as autoridades chinesas violam de forma descarada os direitos humanos e tornou, este ano, o território chinês alvo de investigações da Organização das Nações Unidas”, completa.

O modelo conhecido como “um país, dois sistemas” tem duração até 2047 e prevê que Hong Kong tenha seu próprio sistema de leis e independência judicial, apesar da ilha estar cada vez mais próxima do sistema de Pequim. Quem tem o que comemorar neste aniversário, portanto, é apenas a ditadura chinesa.

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Fonte: GAZETADOPOVO.COM.BR