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O que mudanças climáticas e desigualdade têm a ver com a escala 5×2?

O que mudanças climáticas e desigualdade têm a ver com a escala 5×2?

The ConversationO que mudanças climáticas e desigualdade têm a ver com a escala 5×2?

POR CAROL TOMAZ

A proposta de reduzir a jornada de trabalho voltou ao centro do debate público brasileiro. Mas, além das discussões sobre produtividade, custos e competitividade, existe uma pergunta que raramente aparece nesse debate: o que a jornada de trabalho tem a ver com a crise climática?

Nas últimas semanas, discussões sobre o fim da escala 6×1 e a adoção de modelos que garantam mais tempo de descanso mobilizaram sindicatos, empresários, parlamentares e milhões de trabalhadores. Grande parte das análises tem se concentrado nos impactos econômicos da medida: empresas conseguirão se adaptar? A produtividade cairá? Os custos aumentarão?

Mas reside aí um outro ponto pouco discutido, para além da questão da saúde e do bem estar dos trabalhadores: o que a jornada de trabalho tem a ver com a crise climática?

À primeira vista, nada. Afinal, trabalho, produtividade e mudança do clima costumam ser tratados como temas separados. No entanto, um relatório internacional lançado recentemente sugere exatamente o contrário.

O Global Justice Reportelaborado por uma coalizão internacional de pesquisadores ligados ao World Inequality Lab, de Thomas Piketty, propõe um caminho para enfrentar simultaneamente três dos maiores desafios do século XXI: a emergência climática, a desigualdade extrema e a perda de qualidade de vida. E uma das conclusões mais provocativas do estudo é que trabalhar menos pode ser parte da solução.

Isso porque vivemos em uma época de enorme capacidade produtiva. Hoje, a tecnologia permite produzir mais alimentos, mais bens e mais serviços do que em qualquer outro momento da história. Além da inteligência artificial que avança rapidamente e a automação com as máquinas que substitui tarefas repetitivas. Com isso, a produtividade cresce em diversos setores.

Diante desse cenário, seria razoável imaginar que, com esses avanços, as pessoas estariam trabalhando menos e desfrutando mais tempo livre. E essas novas variáveis deveriam entrar na equação de como estamos nos organizando economicamente. Mas não é isso que acontece.

Em muitos países, inclusive no Brasil, milhões de pessoas continuam enfrentando jornadas longas, deslocamentos exaustivos, dificuldade para conciliar trabalho e família e uma crescente sensação de falta de tempo. Paradoxalmente, quanto mais produtiva a economia se torna, mais escasso parece ser o tempo, e o relatório parte justamente dessa contradição.

Ele propõe que em vez de utilizar os ganhos de produtividade para ampliar continuamente a produção e o consumo, empregadores poderiam direcionar parte desses ganhos para algo cada vez mais raro: oferecer tempo livre. Tempo para cuidar dos filhos, dos pais idosos, da própria saúde, da participação comunitária, do aprendizado e do descanso.

Conceito de suficiência

Mas o que isso tem a ver com o clima? A resposta está no conceito de suficiência. Em termos simples, uma economia que depende menos da expansão contínua da produção e do consumo tende a exigir menos extração de recursos, menos energia e menos emissões para sustentar o bem-estar da população.

Durante décadas, as estratégias econômicas foram construídas em torno de uma lógica simples: crescer continuamente. O que significa: produzir mais, consumir mais, e extrair mais recursos. Expandir mais mercados. Essa lógica ajudou a gerar riqueza, mas também contribuiu para a crise climática, para a perda de biodiversidade e para o aumento das desigualdades. O Global Justice Report propõe outra pergunta: quanto é suficiente para garantir uma vida boa para todos?

Por mais que a mudança de pergunta pareça pequena, ela altera profundamente a forma como entendemos desenvolvimento. Já que em vez de perseguir o crescimento material infinito, a proposta é garantir que todas as pessoas tenham acesso a condições dignas de vida dentro dos limites ecológicos do planeta.

Nesse cenário, prosperidade deixa de ser sinônimo de acumulação permanente e passa a ser medida pela capacidade de viver bem. O relatório mostra que essa transição não depende apenas de energias renováveis ou tecnologias mais eficientes. Ela exige mudanças na forma como distribuímos renda, riqueza e também tempo.

Carol Tomaz – Doutoranda em novas economias e innovação social, na Universidade de Brasília (UnB).

Este texto foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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Foto: Unsplash/rio-lecatompessyProsperidade deixa de ser sinônimo de acumulação permanente e passa a ser medida pela capacidade de viver bem

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Fonte: ECONOMIA.IG.COM.BR

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