Nicola Di Luccio, tradicional mecânico do Rio (1926-2020) – Carros – iG

Reprodução/YouTube Nicola Di Luccio: amor pela velocidade fez com que ele inventasse uma turbina, a que batizou de Turbonic – isso em 1963

A necessidade é a mãe da invenção, e isso norteou a vida de Nicola Di Luccio, dono de uma tradicional oficina na Rua Frei Caneca, quase em frente ao portão do antigo presídio.

Nascido em Agropoli, no Sul da Itália, em 1926, ele formou-se em mecânico em plena Segunda Guerra. Pela manhã, ia ao instituto tecnico de sua cidade e, à tarde, aprendia na prática nas oficinas que transformavam velhos Fiat 509 em picapes e blindados improvisados. Terminado o conflito, as coisas se tornaram ainda mais difíceis. Havia muita fome e nenhum Balilla ou Topolino para consertar.

Americanos e soviéticos começaram a se estranhar e, antes que estourasse outra guerra, Nicola veio para o Rio, em 1947. Aqui, ele trabalhou com os representantes Fiat de então. Depois, aderiu aos carros da francesa Simca, que, à época, produzia modelos Fiat sob licença. Aos 27 anos de idade, montou sua própria oficina, na Frei Caneca 474.

Foi com um Simca Aronde que Nicola descobriu-se piloto, brilhando nos circuitos de rua do Maracanã, de Botafogo e da Esplanada do Castelo durante a década de 50. O amor pela velocidade fez com que ele inventasse uma turbina, a que batizou de Turbonic – isso em 1963, dez anos antes de a BMW e a Porsche lançarem seus primeiros motores turbocomprimidos.

Graças à sua fama em afinar Fiat e Simca, foi apelidado de “Paganini dos motores”, uma referência ao compositor e violinista italiano de ouvido extraordinariamente sensível. Nos anos 60, tornou-se mecânico autorizado Willys. Tinha orgulho de seus aparelhos de teste de última geração.

Quase um flex

Nicola não gostava de ficar parado. Na década de 80, ao ver o filho mais velho se formando em Medicina, decidiu, ele também, cursar o ensino superior, já com 54 anos de idade. Fez, então, duas graduações: Direito e Administração.

Em 1990, faltou álcool nos postos e Nicola bolou um espaçador entre as velas e o cabeçote: baixava-se a compressão e o carro podia usar gasolina temporariamente. Era quase um flex…

Nicola, até os seus 93 anos, frequentava diariamente sua velha oficina Rua Frei Caneca, fazendo manutenção de carros de coleção e exercendo o ofício que sempre foi sua grande paixão.

Desde o início da pandemia, não se conformava com o confinamento, em não poder frequentar sua oficina. Em 26 de maio, ele morreu em casa, enquanto dormia. Viúvo de Brígida, ele deixa três filhos, sete netos e um bisneto. “A mecânica é um eterno aprendizado”, filosofava Nicola , personagem dos anos de ouro do automobilismo carioca.

Fonte: carros.ig.com.br/2020-05-29/nicola-di-luccio-tradicional-mecanico-do-rio-1926-2020.html