Pedro HauckO Templo do Pavilhão Dourado em Kyoto.
A história da filosofia Wabi-Sabi (侘寂) e a sua aplicação no planejamento de templos, jardins e arquitetura é uma fascinante jornada de transformação cultural que começou no final da Idade Média japonesa e atingiu seu auge no século XVI.
A filosofia do Wabi-Sabi e a sua aplicação no planejamento de templos, jardins e espaços arquitetônicos não surgiram de forma repentina, mas sim como resultado de um longo processo de transformação cultural e espiritual no Japão. Originalmente, entre os séculos VIII e XII, as palavras que compõem o termo tinham conotações negativas no idioma japonês: Wabi remetia à solidão e ao sofrimento de viver isolado, enquanto Sabi associava-se ao envelhecimento, à deterioração e à perda do brilho original.
Tudo começou a mudar a partir do final do século XII (Período Kamakura), com a introdução e consolidação do Zen-Budismo vindo da China. Os monges zen trouxeram consigo a percepção de Mujo — a impermanência intrínseca de todas as coisas — e do desapego material. Entre os séculos XIV e XV (Período Muromachi), poetas, intelectuais e mestres espirituais ressignificaram esses conceitos: Wabi passou a definir a simplicidade voluntária e a austeridade elegante, enquanto Sabi tornou-se a apreciação da beleza serena adquirida com o tempo, manifestada na pátina, nas rachaduras e nas marcas do desgaste natural.
Pedro HauckTemplo Tenryu-ji e seu jardim seco
O planejamento de templos e jardins começou a assimilar essa nova sensibilidade estética no século XIV, rompendo com os antigos jardins aristocráticos que buscavam imitar cenários paradisíacos grandiosos e ostensivos. O grande pioneiro dessa transição foi o monge e mestre zen Musō Soseki (1275–1351), criador dos célebres jardins dos templos Tenryū-ji e Saiho-ji (o Templo do Musgo) em Kyoto. Soseki revolucionou a arquitetura paisagística ao valorizar rochas brutas e assimétricas, usar vegetação e musgo locais e consolidar a técnica do Shakkei (a “paisagem emprestada”), na qual a natureza selvagem das montanhas ao redor era integrada ao desenho do jardim, eliminando as fronteiras entre o artifício humano e o ambiente natural.
Pedro HauckTemplo Tenryu-ji foi fundado em 1339 pelo xogum Ashikaga Takauji
Avançando para o século XV, após as devastações da Guerra de Ōnin (1467–1477), a escassez de recursos aliada ao aprofundamento da espiritualidade zen deu origem aos Karesansui — os famosos jardins secos de pedra e areia. Os monges abandonaram as fontes de água fluida, as pontes decoradas e as plantas floridas para erguer espaços puramente contemplativos e minimalistas, compostos apenas por rochas dispostas de forma assimétrica e areia rastreada para simbolizar o universo. O exemplo mais emblemático dessa era é o templo Ryōan-ji, construído no final do século XV em Kyoto, considerado a expressão máxima do desapego e do minimalismo zen.
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Pedro Hauck
O wabi-sabi exerce influência no design principalmente no campo da arquitetura e no design de interiores.
Foi, contudo, no século XVI (Período Azuchi-Momoyama) que o Wabi-Sabi se consolidou de forma definitiva como o cânone estético do Japão. Em uma reação consciente ao luxo ostensivo e às porcelanas cobertas de ouro preferidas pelos grandes senhores da guerra (daimyōs), mestres da Cerimônia do Chá como Murata Jukō, Takeno Jōō e, sobretudo, Sen no Rikyū (1522–1591) revolucionaram o design e o paisagismo. Rikyū criou as Chashitsu (casas de chá), estruturas íntimas e rústicas erguidas com madeira sem pintura, palha, bambu e paredes de barro, dotadas de janelas irregulares para filtrar a luz de modo poético. Ao redor dessas casas, ele planejou o Roji (o “caminho orvalhado”), um jardim propositalmente selvagem, coberto por musgo, pedras brutas de pisada (tobi-ishi) e lanternas de pedra envelhecidas pelo tempo.
Dessa forma, ao longo de quatro séculos de evolução — desde a chegada do Zen no século XII, passando pelos primeiros jardins contemplativos de pedra no século XIV, até a revolução das casas de chá no século XVI —, o Japão transformou a dor da impermanência na celebração da imperfeição, moldando para sempre a arquitetura, os jardins e a identidade cultural do país.
O Quintal da minha infância e a revelação de um sonho
Ao caminhar sob a sombra dos pinheiros de Tenryū-ji e contemplar o musgo cobrindo as pedras milenares de Kyoto, uma memória esquecida há 35 anos emergiu com uma clareza avassaladora. Lembrei-me de um sonho da minha infância, quando eu tinha apenas 10 anos de idade, ocorrido na casa onde cresci, em Itatiba-SP.
No sonho, eu visitava o quintal de casa nas primeiras horas da manhã, envolvido pela luz suave e avermelhada da aurora e pelo canto sutil dos pássaros (talvez eu estivesse tende este sonho na primeira da manhã). Em um canto do terreno, onde meu pai havia despejado areia de construção anos antes e cercado com blocos rudimentares de granito trazidos da Serra da Jurema, o tempo havia feito o seu trabalho: a grama, as flores e o musgo haviam tomado conta da estrutura humana.
Arbustos e arboretas haviam crescido sem cuidado ou poda, formando um jardim de aspecto visivelmente nipônico. Sobre aquele montículo de areia e pedras brutas envelhecidas pela natureza, erguiam-se um torii e uma estátua de Buda feita de pedra e cobertas por musgos (estas imagens construídas no sonho, mas inexistentes no lugar!). Era uma cena sem fala e sem ação — apenas a pura contemplação de um espaço familiar reconfigurado pela passagem do tempo e modificado por minha fascinação pela beleza estética nipônica.
O Reencontro com o Inconsciente Estético
Apenas hoje, ao me deparar com a arquitetura dos templos e o arranjo de rochas de Kyoto, compreendi que a minha mente infantil já havia vislumbrado, sem saber, a essência do Wabi-Sabi. Os blocos de granito da Serra da Jurema eram o esqueleto rústico (iwagumi); a areia tomada pelo musgo e pela vegetação nativa era a celebração do envelhecimento natural (Sabi); e o silêncio daquela manhã de sonho era o próprio estado de contemplação (Yūgen). Caminhar pelos templos de Kyoto, 35 anos depois, foi o fechamento perfeito desse ciclo: o momento em que o meu olhar adulto reencontrou a paisagem que meu inconsciente já guardava.
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Fonte: TURISMO.IG.COM.BR

